quarta-feira, dezembro 13, 2006

Republicando...

Férias de Araras chegando...Me deu vontade de republicar a irônica "A Quica vai" em forma de protesto, de janeiro do ano passado.

A Quica vai

Fui passar as férias em uma pequena cidade considerada modelo, 80 km de Campinas, interior de São Paulo, onde mora minha família. Habitada por pessoas honestas. Todos se conhecem e se ajudam. Uma verdadeira comunidade!Infelizmente tem muito tempo que deixei esta cidade e não tenho mais amigos. Mas tem a Quica, amiga da prima e da tia. Ela oferece amizade. Vai a uma festa de reveillon e me convidou. Que bom! Uma festa chic mic, mas tudo bem. Novas amizades... Araras é maniqueísta suficientemente para conseguir traçar uma linha bem clara entre elite e o outro lado. Eu me lembro do clube ararense, que somente recebia as pessoas consideradas de bem por um comitê. O clube oferecia um barzinho aos sábados e recebia salgadas mensalidades das pessoas de bem.
Quando chego à casa da tia, a prima falou que todos comentam que eu tatuei a perna toda com uma tatuagem de dois palmos e oito dedos de tamanho. É, não é bem assim, mas tudo bem. Poderia ser. Volta à casa, feliz, a Quica vai à festa e eu também!
Não, não pode. É prostituta, sou informada. Como assim? É enfermeira do hospital municipal. Não presta, saiu com um médico casado (na verdade, parece, talvez, que separado), mais velho. Nunca mais será bem vista e nem quem sair com ela. Proibida. Não pode manchar o bom nome dos Sandalos na comunidade. Será que o nome Sandalo também mancha, então?
Vamos ver no que isso vai dar...Deve sair com a prima que vem de Ribeirão que chega no dia 31. É a primeira vez que vem para Araras.
Mas a prima vai sair com a irmã da cunhada e duas amigas, já está resolvido.Em um discurso próprio de Grace sobre respeito humano, tolerância, democracia, preconceitos, etc, resolvo aceitar a imposição e ir com a prima de Ribeirão! Tolerância significa também respeitar a visão antiquada da mãe.Vou ter que me oferecer. Não fui convidada. Tolerância é tolerância. Aceitar as diferenças... Pode ser interessante conhecer o outro lado de Araras. Aviso que gostei da Quica, mas dou minha palavra de obediência.
Na ceia, a mãe entende onde as escolhidas vão. Agrada a Quica, e Quica re-convida. Palavra é palavra, não volto. Faço o que prometi. Mas Graces reais também têm seu lado monstro. Sabia que puniria a mãe assim fazendo, vendo que desviou a filha da elite para o submundo. Modo de questionar ideologias ou crueldade? Crueldade com quem?
Têm também seus preconceitos, embora pense que não. Não consegue entrar na festa com os caras com cara de ladrão na porta.
Povo do carro: O que a elite com a gente? Vamos destruir a festa, então. Rodamos de carro procurando a pseudo-alternativa que poderia agradar a diversidade, até quase acabar a gasolina, desviando de bêbados. Quase que minha merivinha se acaba em uma quase batida de frente com um fusca branco de portas abertas. Não, minha meriva, não. Cansei, deixei-as em casa. Somente a prima de Ribeirão fica. Vamos à festa da elite.
O que? Chegando duas da madrugada e não conhece ninguém na festa? Como pode? Não, senhor porteiro, não somos de Araras. Por isso não conhecemos ninguém. Tá cheio, não pode mais. Deixa entrar. Não.
Cadê a Quica? Qual o verdadeiro nome e o sobrenome para ser chamada. Não sei. Nunca perguntei.
Resto da noite na fila vendo as pessoas atrasadas telefonando para figurões virem para a porta ou dizendo “sabe de quem sou filho?” para conseguir entrar. Grace jamais usaria um argumento de autoridade. Ficamos na rua em frente à festa, resto da noite. Em uma longa fila para o porteiro decidir quem deixaria de ser excluído por escolha. Vamos ver onde isso vai dar... Não fomos escolhidas.
Na segunda-feira levei o carro para a revisão. Já que ele se salvou, melhor deixar bem bonitinho. Às cinco horas da tarde, o Ademir ligou e minha mãe atendeu. Horrorizada, falou tem um Ademir te procurando. Quem é Ademir? O que é isso?
Olha, tem 1200 reais de peças para trocar, pode parcelar em cinco vezes. Faz o serviço? Dá para devolver o carro amanhã? Pode fazer, Ademir. Obrigada.
Será que tem algum pai gangster para me tirar de Dogville?

Dias melhores pra sempre...

1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Bem, Filomena, acho que vou ser sua leitora assídua... Mas pelo visto, nem tão anônima!

Há quinze anos tento sair de Dogville... Cidade onde nos classificam pelo sobrenome (pedigree) e pelo grau de parentesco (e olha que nem conhecem Satrauss!).

Pai gangster?

Esquece!!!

Talvez o PCC...


Bjus

12:06 AM  

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