Chuva e sol: casamento de espanhol
Faz muito tempo que não como carne. Virei vegetariana, pelo menos de carne vermelha. Peixe tudo bem, e frango só raramente. E adoro comida indiana, comida garantida sem carne. Me deu vontade agora de comer grão de bico com batata, curry e gengibre. Sei fazer. Pena que não tem ninguém aqui para justificar uma culinária. Minha casa está vazia e a república quase. Eita solidão do cacete! E depois de uma semana em grupo, dormindo em grupo com banhos coletivos, o isolamento parace ainda pior. Fico com insônia, me dá pesadelo. Acabei sonhando que tinha ficado congelada por 20 anos. Quando acordei, voltei para Araras, todo mundo estava velho e ninguém me reconhecia. Julgavam-me morta e não aceitavam aquela figura do passado. Não era mais aceita por ninguém porque tudo havia mudado, menos eu. Que coisa esquisita. Obviamente resultado de um fim de semana de isolamento. Fiquei em casa lendo uma tese de Porto Alegre para sexta. Vou para lá e há de ser melhor. Quando voltar, acho que tudo estará normal de novo. Barão Geraldo está vazio agora. Nem dá vontade de sair nas ruas congeladas como eu no sonho. Verdade que ontem fui no Delta Blues e estava bom, mas não é Barão. E pior é que só chove aqui em janeiro. E chuva só lembra de coisa triste. Mais parece lágrima caindo para fora. A Dona Doida melhora quando chove, eu só melhoro com sol.
Dona Doida
Adélia Prado
Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
Dona Doida
Adélia Prado
Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.


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