sábado, abril 19, 2008

Misturando

Em diálogo, parte real, parte inventado:

Em cada velha árvore, tem uma orquídea agarrada. Orquídea que lamenta e conta a história de chegadas e partidas. Fala das estrelas do céu em flores roxas, brancas, coloridas de saudades. Ninguém nota a orquídea que mais que todos carrega o silêncio e tantos gritos? A orquídea fica olhando tantas partidas, tantos vazios. Sempre presa. Sabe que as orquídeas são um desafio para os teóricos, no que diz respeito ao próprio conceito de espécie? Há muitas orquídeas. As orquídeas se misturam infinitamente quando postas em contato. As orquídeas podem misturar suas espécies e obter uma combinação quase infinita de novas formas e cores. Ninguém vê que a arte é mistura? Pode-se misturar como quiser, criando novas cores e idéias. Anna passou a vida fazendo seu revolucionário morto voltar à vida. Ele virou não pessoa por ordem e costume da ditadura russa. A orquídea mistura e tudo volta para a realidade em forma de mais e mais cores. Nada faz sentido? Que importa? As raízes das orquídeas podem perturbar um amante de plantas. Com umas formas que mais fazem lembrar algum aracnídeo e de uma cor esverdeada quando geralmente as raízes das plantas são brancas (sem cor). Não faz sentido ainda? Que importa?

“O que te escrevo não tem começo: é uma continuação. Das palavras deste canto que é meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases, você sente? Minha experiência vem de que eu já consegui pintar o halo das coisas. O halo é mais importante que as coisas e as palavras. O halo é vertiginoso. Finco a palavra no vazio descampado: é uma palavra como fino bloco monolítico que projeta sombra. E é trombeta que anuncia.”

A arte é “a antevisão de poder um dia me largar e cair num abandono de qualquer lei. Elástica.”




“Ao pé da velha árvore o velho dormiu. Sonhava o velho e sonhava a árvore. O velho sonhava que era a árvore e a árvore que era o velho, quanto mais sonhavam, mais se confundiam as rugas do velho com aquelas da árvore. No sonho, o velho subia na árvore e a árvore descia no velho. As raízes se libertavam da terra e a árvore sentia que podia finalmente andar; andar na direçao do mar, que há séculos via sem nunca conseguir mergulhar. A árvore, acostumada ao doce sabor da chuva, queria saborear aquela água salgada que até o momento podia somente cheirar, nos raros momentos em que o vento lhe trazia um suave perfume. No entanto, o velho, sempre mais velho e com rugas sempre mais enrugadas, subia e subindo, podia ver pouco a pouco o vasto horizonte e longe via um velho que corria para a imensidão. Um velho que cantava e chorava porque finalmente poderia entender o sabor do mar. “Velho, não corre, que a imensidão te espera” – gritava o velho que sonhava ser a árvore. E por ser velha a árvore sonhada, se sentia o velho com direito de dar conselhos à árvore, que sonhava ser o velho que corria. “ Não é necessário correr”. A árvore já tinha esperado uma vida, uma longa vida de árvore, uma vida a ver passar a vida sempre e ininterruptamente deste preciso lugar no qual chegou, imaginem, como semente. E agora que sonhava ser o velho, que sonhava ser a árvore, podia finalmente ir embora. Imaginem a sua correria entre as outras árvores descendo da colina e depois pelos campos pisando os pés de milho! E imaginem se ela parasse para escutar o velho verdadeiro que ela, o velho no sonho, sonhava ser, quando o velho que sonhava ser ela, árvore sonhada, lhe gritava (o velho): “vai devagar velha, que não é dos velhos correr, depois te falta ar”. Mesmo com falta de ar, ela continua correndo. Suas pernas, de velho sonhado, não resistem mais e mesmo com seu coração resistindo ainda menos, ela continua correndo, agora na praia, e sabemos como é cansativo correr na areia. “Não corra velha, que a imensidão de qualquer maneira te espera e mais cedo ou mais tarde chega, sempre, viu? Você chegou”. Sim, porque o velho que sonhava ser a árvore, chegou e mergulhou na imensidão; mergulhou para entender de uma vez por todas o sabor do mar. Quando se desperta, a árvore, que em sonho tinha conhecido o sabor salgado, sente a sua velha pele esquentada pelo sol. Uma parte, no entanto, continuava fria, ali onde o pequeno corpo do velho, que já não mais sonhava ser árvore, mergulhava na imensidão.

Vozes que carregam as palavras

Que carregam também o silêncio

Ruídos, músicas, tantos gritos,

Carícias que batem no vazio.”



(Textos em aspas de Clarice Lispector e Norberto Presta)

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