Mistérios de um mundo gramatical
O que é “eu”? O que se pode dizer ou como definir “eu” fora da situação de enunciação? Enunciação, de acordo com Benveniste, é o processo de funcionamento da língua por um ato individual de utilização. Esse ato individual pressupõe um sujeito, um contexto, um tempo definido e um destinatário. Fora desse contexto, o único conceito possível é o de um pronome que designa a primeira pessoa singular do discurso. Esse seria um motivo interessante para explicar o porquê de a primeira pessoa ser algo excentricamente marcada na gramátiaca de algumas línguas do mundo (cf. hierarquia 1>2>3 do Tupi-Guaraní). Mas ocorre que Kadiwéu tem uma posição sintática distinta para pronomes de primeira e de segunda pessoa. Não só a primeira, portanto. Terceiras pessoas, incluindo demonstrativos, ocupam uma outra posição na gramática Kadiwéu. Embora não possa provar ainda de maneira inquestionável, parece-me que argumentos de primeira/segunda pessoa funcionam nesta língua em uma gramática de caso ergativo/absolutivo, enquanto terceiras pessoas estão em uma gramática de caso nominativo/acusativo. Por que ocorreria tal cisão na deixis?


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