quarta-feira, outubro 22, 2008

Vi atribuído a Nietzsche (não sei se é verdade, porque li muito pouco dele) o seguinte pensamento:

O tempo se estende infinitamente para trás por toda a eternidade. Ora, se o tempo se estende infinitamente para trás, tudo que pode acontecer já deve ter acontecido antes. Tudo que se passa agora deve ter ocorrido desta forma antes. E se o tempo se estende infinitamente para trás também deverá se estender infinitamente para frente. Assim, todos os estados possíveis já devem ter ocorrido, e o estado presente deve ser uma repetição. E igualmente aquele que lhe deu origem e o que dele decorre, e assim sucessivamente de volta ao passado e à frente no futuro.

Contar coisas somente tem função fática, portanto. Tudo é repetição, nada é novo. Palavras não são novas, servem para estabelecer algum elo entre partículas do universo meramente.

Hoje, este pensamento chega a dar certo acalento...

Mas eu juro que tenho algo novo para contar. Deve ter alguma originalidade, não é possível! Não pelas palavras, que estas já devem ter sido contadas e serão ainda contadas na infinitude do tempo. Mas o que minha filha de onze anos me contou, aos onze anos, deve ser novo dada a idade. E quer obviamente contar ao universo, colocar no orkut (colocou, aliás, ainda bem que o Rodrigo viu logo e apagou). Verdade que há uma repetição. Os adolescentes (ou pré-adolescentes) têm a obrigação de barbarizar a mãe. E dado que eu não sou uma mãe fácil de barbarizar, tem que barbarizar mesmo. Pegar pesado, inclusive no mundo público, senão faz pouco efeito. Eu nunca pensei que seria surpreendida, assim, tão rapidamente. Só onze anos. Não sei como lidar. Deve ter alguma originalidade...

Assim, contar ao universo estas palavras só podem ter a função de reconhecer minha perda de chão. Deve ser repetição. Gritem comigo insetos malditos, já que não tenho nenhuma articulação humana para o momento.

8 Comentários:

Blogger Gigi disse...

Nossa, aquele cartoon que eu coloquei no meu blog foi mera coincidência... tô sabendo de nada!

2:42 PM  
Blogger filomena disse...

Saberá em breve, tem coisas que dão para ser dasabafadas, mas não contadas para toda a gente tim tim por tim tim. Coincidências são sempre benvindas! Meu post também não foi gerado pelo seu post. Se é verdade que tudo é repetição, a vida retorna sempre, coincidências também têm.

2:47 PM  
Blogger Decolonizing Wittgenstein disse...

Filomena,

vou deixar um comentário nesse seu lindo post:

Tem um conto do Borges, no livro Aleph (1947), que se chama "El Inmortal". Já leu? É a história de um homem que conseguiu tornar-se imortal, mas que, infelizmente, descobriu que numa vida imortal qualquer um pode escrever a Odisséia várias vezes, e também a Divina Comédia, e o Quixote. Tudo será mera repetição, do ponto de vista infinito. E, por conseguinte, tudo banal.

Por isso, a certa altura do conto, o narrador comenta: "Ser inmortal es baladí; menos el hombre, todos los animales lo son".

Talvez o que Nietzsche quisesse dizer com a doutrina do eterno retorno do mesmo seja o mesmo que o Borges narrador desse conto. Não que uma vida, de onze anos, por exemplo, repita o que sempre se fez – porque o repete, e outras o repetirão – mas que essa vida de onze anos é infinita porque tudo se acaba num momento. E tudo o que ela faz, por causa disso mesmo, tem a profundidade e o acalento da arte (para usar o adjetivo que vc sempre usa). E nós queremos, nessa vida, o eterno retorno do mesmo.

2:53 PM  
Blogger filomena disse...

Eu não sei bem o que eu quis dizer. Acho que foi apenas algo assim: mesmo que tudo seja uma repetição, pensando a vida em espécie homo sapiens, palavras são elos importantes entre pessoas, sejam essas palavras coisas surpreendentes ou coisas banais. E estes elos são o mais importante desta vida. De fato, seriam banais se fôssemos imortais, mas não somos. Palavras, banais ou surpreendentes, são necessárias.

Não li o conto, vou procurar.

Sobre o acalento... Eu acho que procuro mesmo o acalento. Que seria isso?

Podemos tomar umas qualquer dia e conversar a rspeito de banalidades importantes. :)

Beijos

12:58 AM  
Blogger Decolonizing Wittgenstein disse...

"Palavras são elos importantes entre pessoas".

A ética, tão banal e tão desimportante, não é uma pressuposição certa de que palavras são elos? Banais ou não, palavras são elos de que tipo? De tipo cognoscitivo ou de tipo performativo?

Talvez aqui o segredo do acalento. Não sei...

Tomaremos umas, e é possível que a gente não descubra.

JJ.

9:18 AM  
Blogger filomena disse...

Quase certo que não descobriremos... Mas é legal falar pensamentos, mesmo que não se descubra, de fato, nada. Sei lá elo de que tipo! Eu pensei performatio quando falei. Mas o acalento, se existir, deve ser mais que isso.

Não entendi a coisa da ética.

10:26 AM  
Blogger Decolonizing Wittgenstein disse...

Se as palavras forem elos entre pessoas, e não somente entre expressão e conteúdo, ou entre significante e significado, então a ética está imediatamente dada na linguagem - na forma como elas são empregadas num certo contexto (ou não?)

Por exemplo, sábado estava num churrasco e duas crianças de cinco anos brincavam na piscina: uma loirinha de olhos azuis, e outra moreninha de tipo indígena. Uma moça a meu lado comentou: - "Podem dizer o que for, mas criança loira de olhos azuis é muito mais bonita!".

Qual é o elo que entre pessoas estabelecem essas palavras? Esse elo tem implicações éticas naquele contexto? Ou não há nenhuma implicação, dado o fato de que a frase foi ingênua, ou sem maldade, ou de que ninguém é obrigado pela ética etc.? E que acalento, e para quem, pode trazer o estabelecimento dessas ligações? Ou nada disso é tão importante, e tanto faz o elo que entre pessoas as palavras estabelecem se algum acalento elas trouxerem? Ou o acalento depende antes de uma espécie de responsabilidade com as palavras?

Em tudo isso penso em ética...

2:31 PM  
Blogger filomena disse...

Entendi a coisa da ética. Mas acho que vai além de ética, então. As palavras são também reveladoras de ideologia e de valores. Nada adianta ter ética e não falar, mas pensar. Bom que falem para criar elos bem longe. :)

Mas cabe perguntar como será o eterno retorno desta pessoa.

Eu estava pensando em palavras mais responsáveis obviamente. Algo que embora pudesse ser repetição, ainda traga um tipo de belo. Serve para a arte (tem arte totalmente nova mesmo?)e para coisas difíceis da vida que quase todos passam, mas que tem o sentimento de amor ou de questionamento de valores ideológicos que caracteriza o homo sapiens. Foi nesses sentidos que a fala da Julia me pegou.

Mas daí pensei que pode ir mais longe. Nesse sentido, até falas com mera função fática podem ter alguma força às vezes, depende de onde estão inseridas. Pensava novamente talvez em lacunas preenchidas com pouco, mas ainda reveladoras de algo. Não pensei em lacunas preenchidas com porcaria. Mas que existem, existem. Retiro, portanto, minha fala sobre a fala vazia de estrutura, mas cheia de conteúdo. Isso seria arte talvez: o simples que é belo. Não se encontra mesmo assim tão fácil. Melhor o silêncio mesmo, portanto.

3:12 PM  

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