domingo, novembro 30, 2008

Corpo Seco




Estávamos seguindo a serenata ao lado das rabecas colina abaixo. Quando vi dançando no pé da colina a encarnação do ser mais feio que a desnutrição poderia criar. Seria mulher mesmo? Ou a saia era apenas o que tinha para se cobrir? Teria quantos anos? Pareciam muitos, mas a agilidade e os cabelos pretos opacos revelavam o contrário. Carne não havia em nada, nem seios de tão seco o corpo, apenas feridas. Altura também não. Nem dentes e sem um olho. Não é bom saber quantos anos de tristeza e fome já se foram. Eu me horrorizei. Era difícil reconhecer um ser humano.

A serenata continuou. De repente, fui agarrada por de trás e disse: "Rodrigo me larga!" Mas quando desci os olhos para pegar as mãos e soltá-las eram ossos pretos e enferidados.

Eu não podia encostar as minhas mãos e o corpo estava colado ao meu. Eu me virei tentando escapar. A voz era de mulher e dizia: "tu é gostosa, deixar eu sentir." Escapei. Ficamos de frente e ela disse “minha luz, Deus te abençoe, tão linda e gostosa, benvinda a Olinda iluminando meu dia e minha noite. Eu agradeço poder ver tua luz. Moço, diga a ela sempre como ela é gostosa."

“Esta raiva que no fundo há em mim, uma espécie de raiva às vezes incontida, é porque nós não merecemos a vida. Não a merecemos.”

Feridas da luz.

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