Memórias: saudades de Ken Hale
Foi na reunião da Linguistic Society of America de 1995 que conheci Ken Hale, pessoa que influenciou enormemente minha vida. Ele era o presidente da mesa. Isso ocorreu em uma época em que eu estava bastante desacreditada de meu trabalho de doutorado, dados os desacordos com Daniel Everett. Ken Hale, um dos mais prestigiados lingüistas dos Estados Unidos, fez uma menção honrosa ao meu trabalho frente a uma platéia de quase duzentas pessoas que haviam ido vê-lo falar sobre interface semântica-sintaxe. Ele me fez otimista de novo. Queria conhecer Chomsky. O modo veemente como ele revolucionou os estudos sobre linguagem me impressionaram desde a graduação e eu queria muito conhecê-lo pessoalmente, saber como ele é como pessoa. Surgiu da LSA de 1995 uma oportunidade de continuar meu trabalho com Hale como pós-doutoranda no MIT. A proposta pareceu-me irrecusável. Mas o CNPq não aprovou que eu fosse para Boston, permanecendo, portanto, nos Estados Unidos, e não me concedeu bolsa de pós-doutoramento. Não foi apenas o CNPq que pressionou para eu não ir a Boston. Sofri pressão da Carnegie Mellon University para ficar em Pittsburgh, pois já havia um ano que eu trabalhava naquela universidade. Abandonei a posição na Carnegie Mellon e ignorei o CNPq. Fui para Boston para uma vida financeiramente bastante precária. A passagem pelo MIT definiu em muito quem sou hoje. No dia 22 de maio de 1997 minha primeira filha (com 1 mês e quatro dias) sofreu uma parada cardíaca. Tudo mudou na minha vida. Foi um ano de internações freqüentes no Hospital da Criança em Boston. Sem o apoio de pessoas como Ken Hale e Luciana Storto (colega brasileira e doutoranda no MIT) eu não seria mais uma lingüista hoje. Julia, minha filha, ficou com paralisia cerebral devido ao problema cardíaco. Eu fiquei transtornada. Pensei em abandonar a lingüística porque acreditava que meu conhecimento não podia ajudar a Julia. Se este conhecimento não servia nem mesmo para ajudar minha própria filha, de nada serviria. Perdi a vontade de tudo. Foi com a ajuda destas pessoas que eu retomei o rumo de minha vida. Voltei para a UNICAMP e para o interior de São Paulo, onde vive minha família. O carinho de meus colegas e de meus alunos na UNICAMP me deram vontade de lutar por meu ideal novamente: de ver as línguas brasileiras figurarem na construção da lingüística. Mas este não é mais meu único grande sonho. Quero ver minha filha completamente independente um dia. Com Ken e Sally Hale, que também têm um filho com deficiência, eu aprendi mais que uma postura acadêmica. Saí do Brasil com uma paixão pelo estudo de línguas nativas das Américas, mas voltei pronta para lutar por duas paixões. Vencemos a morte. Vencemos a vida. Ken, você me ensinou a viver. Saudades.
Mais Florbela, amo Florbela
Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!
Mais Florbela, amo Florbela
Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!


0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial