Paráfrase
Tão próximo de mim quanto uma imagem no espelho, eu podia o ver, mas não compreender. Recebia ao mesmo tempo a minha recompensa e meu castigo. Minha dose de café e nicotina, de cocaína. É bem verdade que essa estranheza não me adianta de nada, já que nem sequer sou capaz de entender o que a faz ser assim. Quantos equívocos fornecem a razão de minha própria vida e as desculpas das quais vivo? Quem afinal está sendo de fato tapeado com o distúrbio causado em meus leitores por minhas observações – elaboradas somente o suficiente para serem inteligíveis, e no entanto interrompidas no meio do caminho? Leitor que acredita em nós (ou mesmo aquele que me crê em pleno delírio, ou ainda nós mesmos), não posso estar satisfeita antes de conseguir dissolver esse resíduo que fornece um pretexto para minha própria vaidade. Para além da vaidade que me seduziu, responda-me enfim e me desvende a sua língua. Onde ela reside, por trás dessas confusas aparências que são tudo e nada? Isolo cenas, recorto-as. Será também uma mentira, esse tudo que me transporta e do qual cada parte, tomada isoladamente, se esquiva? Se devo admití-lo como real, quero pelo menos atingí-lo por completo. E, no entanto, hoje sou obrigada a reconhecer: sem que nada em meus sentimentos mudara, esse amor desprende-se de mim como onda que recua na areia. Meus pensamentos permanecem os mesmos, é a água que me abandona. Alegrias procuradas tempo demais e com intensidade demais me abandonam. Nesses itinerários tantas vezes percorridos, até a surpresa tornou-se familiar. Os caprichos ridículos da consciência em conflito já abandonados por completo podem também ser lidos sem ambigüidade na areia descoberta pela onda. Recordar é uma grande volúpia para o homem, mas não na medida em que a memória se mostra literal, porque poucos aceitariam viver novamente as labutas e os sofrimentos que, no entanto, gostam de rememorar. A recordação é a própria vida, mas com outra qualidade. Faltam ainda pegadas na areia. Eu te amo sem qualquer controle da razão.
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Tortura
Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Florbela Espanca
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Tortura
Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Florbela Espanca


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