Casas ao longo do caminho
Pegue a estrada ao lado do mar. Continue sempre até encontrar pedras onde as ondas estarão batendo com muita força. Aí deve parar o olhar um instante. O mar é verde e dá para ver o infinito. Segue até o acampamento mais próximo e terá muita gente na praia. Depois disso a estrada deve ficar bem vazia. E irá sempre em frente com o pesado suor do sol. Encontrará uma casa branca com escada em aspiral e porta dupla. Pode entrar. Suba a escada bem devagar. O quarto principal tem paredes de vidro de onde poderá observar o mar com ondas que parecem buscar o inverno de sua descrença. Fique o tempo que quiser. Sente com as mãos nas pernas e se torne passivo como um espelho. Aí escutará o silêncio e terá um tempo de abrigo fresco. Depois desce, sai da casa e caminha para o centro da cidade. Caminha ao longo das paredes das construções até encontrar uma casa estilo vitoriano aberta para visitação. É a casa da rica dona que perdeu uma filha. A foto está em cima da lareira. Da janela do escritório dá para ver o jardim com a balança da menina. Sinta a dor. Continue sua viagem. Siga pela estrada de terra vermelha e sem sombra que vai para o interior da montanha. O sol vai queimar sua pele até arder, e as cigarras cantarão sem fim. Haverá, então, muitos insetos. Chegará às ruínas de uma antiga casa. Haverá sombra debaixo de grandes árvores de frutas. Sente e coma mangas. Talvez manga seja uma fruta mais apropriada para o paraíso. Neste momento, olha bem o vermelho criado pelo ocaso. Ele representará todo o sangue que foi outrora derramado neste local. Haverá um rio barrento. Compra peixe prateado da mulher que tem no pescoço o retrato da filha que morreu. Ela mora na casa em ruínas. Esta casa foi destroçada como ela. Mas há restos de vida sussurradas nas folhagens exuberantes da montanha. Volte para a cidade e vá para a igreja. Faça enfim uma prece ao perdido e retorne para seu local de origem. Não esqueça de levar consigo algumas mangas.


2 Comentários:
Lindo texto! Eu adoro esse tipo de descrição, é extremamente sensível.
Obrigada por ser admirador das amadorices que escrevo! Filomena.
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