Espelho mágico
Quando eu era adolescente em Araras, sentia-me muito diferente de todos. Decidi ir embora para procurar gente igual a mim. Não achei, e decidi trabalhar com índios. Quem sabe se no bem diferente, eu não encontraria o meu igual. Pensei, então, que diferença, na verdade, não existe. É fruto de concepções deterioradas do egocentrismo. Decidi ir mais longe, para ver mais culturas estranhas, e fui para o exterior. Reafirmei minha posição. Tive uma filha com deficiência enquanto morava no exterior. Passei a viver o ser-diferente-na-cabeça-dos- outros. Voltei para Araras. Voltei para Campinas. Deixei completamente de acreditar que diferenças são reais. Tudo é muito igual. As pessoas é que se olham por um espelho de parque de diversão, que distorce tudo. Hoje acho que este é meu mal e causa da minha dor, mas não dá mais para acreditar no espelho que sei refletir imagens distorcidas do mundo.
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"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: Quero é uma verdade inventada."
Clarice Lispector
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"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: Quero é uma verdade inventada."
Clarice Lispector


10 Comentários:
Sua distinção caiu muito bem: o espelho com que nos olhamos não é (não deve ser?) necessariamente o mesmo espelho com que olhamos indiretamente o mundo, para o qual damos as costas; O fundo disso é que eu também quero uma verdade inventada, como a Clarice, com uma sala repleta de espelhos, e apenas uma fresta que projete a luz exterior. O problema é que, cedo ou tarde, isso vai confundir e causar enjôos; das opções, ou se quebram todos os espelhos, ou se tapa a fresta da realidade por completo.
Bem, parece que o laser é barreira apenas para algumas mandingas mais simples. De modo geral, aqueles olhos não intimidam.
asas de morcegos da Jaqueline... boiei!
ah, sobre o pierce (e não Peirce, como ia escrever...), é tudo muito bonito, mas o furo é enorme... provavelmente moda isso não vira...
Como não entendeu as asas de morcego? Lembra da história da Jaqueline na festa? Que ela estava com dor de barriga e apareceu um feiticeiro com asas de morcego? Ele ia matar o chefe, mas é tabu na vila matar alguém se tiver encontrado alguém no caminho. Moral da história: o cocô da Jaqueline no meio da noite salvou uma vida! Não dá para esquecer esta história, né?
Tive um sonho em que eu estava em um quarto fechado, está neste blog em algum lugar. Mas não era de espelhos, mas de paredes brancas. A tinta começou a descascar com a humidade e apareceu tinta vermelha por baixo. A água com a tinta vermelha virou sangue. As paredes sangravam. Este foi o resultado de me trancar do mundo. Não parece bom...
História da Jaqueline: Ahhh, tá!!! O feiticeiro e o cocô salva-vidas, realmente inesquecível!
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Também me lembro do sonho. Paredes brancas que se despedaçam em sangramento, mas se bem me recordo algo acontece antes. Um ladrão, certo? Aí a questão já é diferente. Se esconder do mundo duas vezes, mas de formas diferentes. Perseguir vs ser perseguido. Não sei dizer mais nada.
Sobre os espelhos, não posso evitar; tenho que fazer o trocadilho: o importante é que vc reflita.
*GAHHHHH*
O quarto branco do seu sonho parece muito com o inferno do Huis clos do Sartre. A diferença crucial é o fato de vc não ter companhia dentro do quarto.
O que, se comparado ao inferno existencialista, é um grande alívio, não?
Filomena, esqueci que vc está viajando...!
*Interrompemos sua viagem para um pronunciamento importante*
Passei! :)
Se vc estiver na UNICAMP na 2ª, passe na sala do Projeto; acho que vou levar pão doce (feito por mim, com direito a coco e calda).
Parabéns!!!!Meus 3 alunos passaram e eu estou cheíssima de orgulho. Ainda não saiu a colocação, mas sei que tiveram uma boa colocação, o que facilita bolsa. Parabéns, parabéns, parabéns. Beijinhos para nós e espero meu pãozinho.
Filomena, vc não sabe o que aconteceu: o professor da pós da FFLCH (a segunda opção) me ligou hoje no CELULAR perguntando por que eu não apareci para fazer a prova, e disse que eu podia fazer a prova esrita num outro dia se quisesse... Mas eu disse que não, já que prefiro ficar por aqui.
Parece-me que tem vaga sobrando por lá... ;)
Não!!Pelo amor de Deus (ou pela morte?) não vá. Deixe a vaga para os desespetados... Ei, meu espelho mágico tá rendendo. Eu sabia que era o sonho de todo mundo falar para um espelho mágico!!
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