segunda-feira, maio 01, 2006

Parte vem de Clarice Lispector, plágio e modificação

O que te digo agora deve ser lido rapidamente como quando se olha. Estou consciente de minha falta de merecimento. Mas a palavra mais importante da língua tem uma única letra: é. É. É, te quero. Isso é fato. A harmonia secreta da desarmonia. Quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Estas minhas frases balbuciadas são feitas na mesma hora em que estão sendo escritas e crepitam de tão novas e ainda verdes. Embora este meu texto seja todo atravessado de ponta a ponta por um frágil fio condutor – qual? O do mergulho na matéria da palavra? O da paixão? Este texto que te dou não é para ser visto de perto: ganha sua secreta redondez antes invisível quando é visto de um avião em alto vôo. Então adivinha-se o jogo das ilhas e vêem-se canais e mares. Entende-me: escrevo-te não uma história, porque esta eu escondi, mas apenas palavras que vivem do som. O que canta a natureza? A própria palavra final que é nunca mais eu. Esta é a vida vista pela vida. Posso não ter sentido, mas é a mesma falta de sentido que tem a veia que pulsa. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. Para te escrever eu antes me perfumo toda. Agora vou escrever ao correr da mão: não mexo no que ela escrever. Esse é o modo de não haver defasagem entre o instante e eu: ajo no âmago do próprio instante. Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Não gosto é quando pingam limão nas minhas profundezas e fazem com que me contorça toda. Os fatos da vida são o limão na ostra? Será que a ostra dorme? A verdade está em alguma parte: mas é inútil pensar. Não a descobrirei e no entanto vivo dela. Estou me fazendo. Eu me faço até chegar ao caroço. Assim o mais profundo pensamento é um coração batendo, sincero o coração, embora a história não. Tente entender o que pinto e o que escrevo agora. Vou explicar: na pintura como na escritura procuro ver estritamente no momento em que vejo – e não ver através da memória de ter visto num instante passado. O instante é este. O instante é de uma iminência que me tira o fôlego. O instante é em si mesmo iminente. Ao mesmo tempo que eu o vivo, lanço-me na sua passagem para outro instante. Não é um recado de idéias que te transmito e sim uma instintiva volúpia daquilo que está escondido na natureza e que adivinho. Escrevo em signos que são mais um gesto que voz. O que te escrevo continua e estou enfeitiçada. Te quero muito. Sinto amor. Não tenho nenhum merecimento, mas Deus eu peço, um tempo feliz...

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