domingo, janeiro 13, 2008

Barquinho de papel II

Arranco areia do mar sem fim, corais em pedaços.
Faço um barco de papel para enviar um recado
O barco desenrolou e abriu nele os meus braços,
Adélia Prado escrita em pincel.
O desenho desbotou e o navio afundou,
a lua ficou minguante e sumiu, com o navio.
Estrela cadente, peço a Deus um desejo:
não tem nada em comum com a lua;
é bem humano.

Levantei e fui embora com Jonathan.
Não era o caminho do céu.
O navio foi ao bem ao fundo recitando seu desenho apagado:

“A formosura do teu rosto obriga-me
e não ouso em tua presença
ou à tua simples lembrança
recusar-me ao esmero de permanecer contemplável.
Quisera olhar fixamente a tua cara,
como fazem comigo soldados e choferes de ônibus.
Mas não tenho coragem,
olho só tua mão,
a unha polida olho, olho, olho e é quanto basta
pra alimentar fogo, mel e veneno deste amor incansável
que tudo rói e banha e torna apetecível:
caieiras, desembocaduras de desgostos,
idéia de morte, gripe, vestido, sapatos,
aquela tarde de sábado,
esta que morre agora antes da mesa pacífica:
ovos cozidos, tomates,
fome dos ângulos duros de tua cara de estátua.
Recolho tamancos, flauta, molho de flores, resinas, rispidez de teu lábio que suporto com dor
e mais retábulos, faca, tudo serve e é estilete,
lâmina encostada em teu peito. Fala.
Fala sem orgulho ou medo
que à força de pensar em mim sonhou comigo
e passou um dia esquisito,
o coração em sobressaltos à campainha da porta,
disposto à benignidade, ao ridículo, à doçura. Fala.
Nem é preciso que o amor seja a palavra.
"Penso em você" - me diz e estancarei os féretros,
tão grande é minha paixão.”

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