Estranjis
Nove horas. Uma porta cheia de desconhecidos para mim, os outros pareciam se conhecer, faziam grupos, chegavam de dois. Eu sozinha, encostada na parede. Estrangeira em tribos que sempre fui, posso acabar me fazendo aceita. O Renato chega, naquele dia também não sabia o que iria se passar. Parecia nervoso também e se encostou em mim. Agora, braço com braço, havia uma unidade e eu sabia que, juntos, não haveria mais estranhesa. Uma coisa que temos em comum é saber cativar e formar um grupo. Antenas ligadas nas conversas de todos e uma menina disse sobre situações embaraçosas: ouvir escarcéu sexual no cômodo ao lado. A deixa, esse é o assunto. Em pouco tempo era um grupo só de amigos quase num bar, embora na parede e com frio.
Um a um fomos chamados para entrar e entregar o documento. Ao entrar, tivemos que falar com uma tela de computador, e veja bem, falar nome e idade e de onde vinha, com lembranças do local de origem, com documento entregue. Sendo observados pelo ator e diretor. Sempre, todo o tempo, observados pelo diretor, só observados, que sentava ao meu lado às vezes, mas que era platéia, e platéia não responde se convocado discursivamente, não é? Quem me conhece sabe que nada poderia ser pior que isso. Quem me conhece, não preciso dizer aqui, qual era meu grande incômodo. Podia ter sido pedida qualquer coisa, o pior foi o pedido. Sem meu documento, olhado para confrontação, declarei tudo o que foi pedido. Enfrenta, Filomena, sua decisão agentiva de participar e enfrentar qualquer coisa. Obviamente o vídeo foi passado durante a peça, informação pública, nem me olhei obviamente. Depois o ovo. Ai, que boa sensação. Afinal essa era a minha única certeza da noite, o ovo que segurei afetivamente durante muito tempo, até ser quebrado por ordem. Depois disso, fui encaminhada ao banheiro, onde todos ficamos um presos. Havia um filme passando com muita gente loira pelada. Apertado aquele banheiro, com janela fechada, que abafado! Mas o grupo, já unidade formada, estava lá dando um aconchego. Mas eu e outra moça ficamos para o final da libertação. Ganhamos um papel com um texto conhecido e logo depois da libertação, com todos os outros preparando a comida sob ordens, fomos mandadas, nós duas, sentar em cada canto da sala de jantar e ler (de certa forma, interpretar, um trecho de três páginas do Pequeno Príncipe, com instruções quando não estava bom. Eu era a Raposa.
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
Você me cativou, porra! Eu que não consegui. Que porra! Dor de raposa dói viu? Dói para cacete! Sabe o resto do livro, é?
O polícia dos documentos, e depois cozinheiro, não fazia, de fato, interação. O ator principal sabia, ensaiado. Coadjuvante eu. Mas o grupo era grupo, o estranho era ele. Me incomodou, e eu entrei na peça de verdade e confrontei-o. Faz amizade comigo, porra. Me enxerga. Qual é o seu nome? Era polícia e agora cozinheiro! Quem é você? Fui obviamente deportada e trancada no banheiro de novo. Sentei na privada e passei a ver um pouco do filme. Libertada de novo. Volto e aceito as ordens, pico tomate, alface, ovo, meu ovo. O cozinheiro mandou cortar a lecuga e ninguém parecia entender. OK, OK, eu entendi, pico direitinho. Era bem difícil entender esse cara falando espanhol com sotaque basco.
Comemos. O diretor ao lado. Platéia de vidro. Não enfrento. Não se enfrenta platéia, mas o outro está dentro, porra.
De novo, falei provocações e meu documento ficou preso até o final, sendo olhada com cara de provocação, de frente.
Depois discutimos arte muito.
Arte é mais estravazar, disse o Renato.
Arte é sair da morte e vir para a vida, a morte se transformando em vida, num casulo de durex representando.
Eu vivi a arte como atuante e como debatedora leiga, mas adorando. Não posso repetir; a gente pode entender algo quando começa uma aula muito bacana, mas de início não pode repetir, pois era fora do casulo, não entendo teoria de arte. Não processa de imediato.
O João, que é fascinado por morte, desenvolveu a idéia de que se pode escolher o momento da morte e morrer é agentivo! Que encontro formidável.
Eu fiquei até o final. Eu sei quando a morte chega, mas eu escolhi agentivamente a enfrentar. Podia não ir, e ficar na dúvida para sempre? Não, melhor enfrentar categoricamente e agentivamente o momento de morte, para renascer de outra forma cada dia.
Fiquei até o final. Ainda tem mais. A certeza tão grande como a do ovo. Quando o último grupo falou que iria e disse que iria pegar minha bolsa. A raposa é finalmente abraçada pelo cativador e o abraço fica demorado, segurada no casulo, e todos se vão. Tchau Filomena. Mais ninguém. Momento do beijo. Quer ficar? Quero, então vem cá. Senta no mesmo lugar de sempre. Eu conheci no Rio outra mulher e me apaixonei. Quer ficar? Não. A gente se vê. Eu não quero te perder. A gente se vê mesmo? Claro! A gente se vê! (Eu sou brasileira na cabeça).
Morrer é transitivo.
"tu mirada me toca - me penetra - y no me gusta – me siento violentada – violada - privada de mi cuerpo – rehén de tu mirada – prisionero -mi cuerpo
y al mismo tiempo – en fin… vivo - por fin - lo siento – soy - mi cuerpo
tu mirada - en mi cuerpo – es una asustadora presencia – que despierta – en mi – en mi cuerpo – un dolor – que me atrae – y no quiero
aunque cierres los ojos tu mirada me toca – mi cuerpo en tu cerebro – no me pertenece – rehén de tu deseo – mi cuerpo – lo siento – mas que nunca – presente – soy – existo – mi cuerpo
no cierres los ojos – que aunque me haga daño tu mirada – en mi cuerpo – prefiero la violencia – tu violencia – la violencia - que tanta ausencia de ternura – que la indiferencia – el miedo – el abandono – mejor tu mirada que me desconoce – mejor - que me fragmenta – mejor - me divide - me aliena – mejor – mejor que un cuerpo ausente que pesa - me pesa – mi cuerpo - me duele – no cierres los ojos – que necesito – mi cuerpo – para seguir – viviendo – mi cuerpo"
Norberto Presta
Quando a arte é vida. Adeus.
Em cada velha árvore, tem uma orquídea agarrada. Orquídea que lamenta e conta a história de chegadas e partidas. Fala das estrelas do céu em flores roxas, brancas, coloridas de saudades. Ninguém nota a orquídea que mais que todos carrega o silêncio e tantos gritos? A orquídea fica olhando tantas partidas, tantos vazios. Sempre presa. Sabe que as orquídeas são um desafio para os teóricos, no que diz respeito ao próprio conceito de espécie? Há muitas orquídeas. As orquídeas se misturam infinitamente quando postas em contato. As orquídeas podem misturar suas espécies e obter uma combinação quase infinita de novas formas e cores. Ninguém vê que a arte é mistura? Pode-se misturar como quiser, criando novas cores e idéias. Anna passou a vida fazendo seu revolucionário morto voltar à vida. Ele virou não pessoa por ordem e costume da ditadura russa. A orquídea mistura e tudo volta para a realidade em forma de mais e mais cores. Nada faz sentido? Que importa? As raízes das orquídeas podem perturbar um amante de plantas. Com umas formas que mais fazem lembrar algum aracnídeo e de uma cor esverdeada quando geralmente as raízes das plantas são brancas (sem cor). Não faz sentido ainda? Que importa?
Filomena
Um a um fomos chamados para entrar e entregar o documento. Ao entrar, tivemos que falar com uma tela de computador, e veja bem, falar nome e idade e de onde vinha, com lembranças do local de origem, com documento entregue. Sendo observados pelo ator e diretor. Sempre, todo o tempo, observados pelo diretor, só observados, que sentava ao meu lado às vezes, mas que era platéia, e platéia não responde se convocado discursivamente, não é? Quem me conhece sabe que nada poderia ser pior que isso. Quem me conhece, não preciso dizer aqui, qual era meu grande incômodo. Podia ter sido pedida qualquer coisa, o pior foi o pedido. Sem meu documento, olhado para confrontação, declarei tudo o que foi pedido. Enfrenta, Filomena, sua decisão agentiva de participar e enfrentar qualquer coisa. Obviamente o vídeo foi passado durante a peça, informação pública, nem me olhei obviamente. Depois o ovo. Ai, que boa sensação. Afinal essa era a minha única certeza da noite, o ovo que segurei afetivamente durante muito tempo, até ser quebrado por ordem. Depois disso, fui encaminhada ao banheiro, onde todos ficamos um presos. Havia um filme passando com muita gente loira pelada. Apertado aquele banheiro, com janela fechada, que abafado! Mas o grupo, já unidade formada, estava lá dando um aconchego. Mas eu e outra moça ficamos para o final da libertação. Ganhamos um papel com um texto conhecido e logo depois da libertação, com todos os outros preparando a comida sob ordens, fomos mandadas, nós duas, sentar em cada canto da sala de jantar e ler (de certa forma, interpretar, um trecho de três páginas do Pequeno Príncipe, com instruções quando não estava bom. Eu era a Raposa.
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
Você me cativou, porra! Eu que não consegui. Que porra! Dor de raposa dói viu? Dói para cacete! Sabe o resto do livro, é?
O polícia dos documentos, e depois cozinheiro, não fazia, de fato, interação. O ator principal sabia, ensaiado. Coadjuvante eu. Mas o grupo era grupo, o estranho era ele. Me incomodou, e eu entrei na peça de verdade e confrontei-o. Faz amizade comigo, porra. Me enxerga. Qual é o seu nome? Era polícia e agora cozinheiro! Quem é você? Fui obviamente deportada e trancada no banheiro de novo. Sentei na privada e passei a ver um pouco do filme. Libertada de novo. Volto e aceito as ordens, pico tomate, alface, ovo, meu ovo. O cozinheiro mandou cortar a lecuga e ninguém parecia entender. OK, OK, eu entendi, pico direitinho. Era bem difícil entender esse cara falando espanhol com sotaque basco.
Comemos. O diretor ao lado. Platéia de vidro. Não enfrento. Não se enfrenta platéia, mas o outro está dentro, porra.
De novo, falei provocações e meu documento ficou preso até o final, sendo olhada com cara de provocação, de frente.
Depois discutimos arte muito.
Arte é mais estravazar, disse o Renato.
Arte é sair da morte e vir para a vida, a morte se transformando em vida, num casulo de durex representando.
Eu vivi a arte como atuante e como debatedora leiga, mas adorando. Não posso repetir; a gente pode entender algo quando começa uma aula muito bacana, mas de início não pode repetir, pois era fora do casulo, não entendo teoria de arte. Não processa de imediato.
O João, que é fascinado por morte, desenvolveu a idéia de que se pode escolher o momento da morte e morrer é agentivo! Que encontro formidável.
Eu fiquei até o final. Eu sei quando a morte chega, mas eu escolhi agentivamente a enfrentar. Podia não ir, e ficar na dúvida para sempre? Não, melhor enfrentar categoricamente e agentivamente o momento de morte, para renascer de outra forma cada dia.
Fiquei até o final. Ainda tem mais. A certeza tão grande como a do ovo. Quando o último grupo falou que iria e disse que iria pegar minha bolsa. A raposa é finalmente abraçada pelo cativador e o abraço fica demorado, segurada no casulo, e todos se vão. Tchau Filomena. Mais ninguém. Momento do beijo. Quer ficar? Quero, então vem cá. Senta no mesmo lugar de sempre. Eu conheci no Rio outra mulher e me apaixonei. Quer ficar? Não. A gente se vê. Eu não quero te perder. A gente se vê mesmo? Claro! A gente se vê! (Eu sou brasileira na cabeça).
Morrer é transitivo.
"tu mirada me toca - me penetra - y no me gusta – me siento violentada – violada - privada de mi cuerpo – rehén de tu mirada – prisionero -mi cuerpo
y al mismo tiempo – en fin… vivo - por fin - lo siento – soy - mi cuerpo
tu mirada - en mi cuerpo – es una asustadora presencia – que despierta – en mi – en mi cuerpo – un dolor – que me atrae – y no quiero
aunque cierres los ojos tu mirada me toca – mi cuerpo en tu cerebro – no me pertenece – rehén de tu deseo – mi cuerpo – lo siento – mas que nunca – presente – soy – existo – mi cuerpo
no cierres los ojos – que aunque me haga daño tu mirada – en mi cuerpo – prefiero la violencia – tu violencia – la violencia - que tanta ausencia de ternura – que la indiferencia – el miedo – el abandono – mejor tu mirada que me desconoce – mejor - que me fragmenta – mejor - me divide - me aliena – mejor – mejor que un cuerpo ausente que pesa - me pesa – mi cuerpo - me duele – no cierres los ojos – que necesito – mi cuerpo – para seguir – viviendo – mi cuerpo"
Norberto Presta
Quando a arte é vida. Adeus.
Em cada velha árvore, tem uma orquídea agarrada. Orquídea que lamenta e conta a história de chegadas e partidas. Fala das estrelas do céu em flores roxas, brancas, coloridas de saudades. Ninguém nota a orquídea que mais que todos carrega o silêncio e tantos gritos? A orquídea fica olhando tantas partidas, tantos vazios. Sempre presa. Sabe que as orquídeas são um desafio para os teóricos, no que diz respeito ao próprio conceito de espécie? Há muitas orquídeas. As orquídeas se misturam infinitamente quando postas em contato. As orquídeas podem misturar suas espécies e obter uma combinação quase infinita de novas formas e cores. Ninguém vê que a arte é mistura? Pode-se misturar como quiser, criando novas cores e idéias. Anna passou a vida fazendo seu revolucionário morto voltar à vida. Ele virou não pessoa por ordem e costume da ditadura russa. A orquídea mistura e tudo volta para a realidade em forma de mais e mais cores. Nada faz sentido? Que importa? As raízes das orquídeas podem perturbar um amante de plantas. Com umas formas que mais fazem lembrar algum aracnídeo e de uma cor esverdeada quando geralmente as raízes das plantas são brancas (sem cor). Não faz sentido ainda? Que importa?
Filomena


2 Comentários:
Acho que entenderia mais se seu blog fosse do tipo explícito... mas td ok. pareceu mesmo uma dessas coisas q acontecem com a gente tão autenticas q passamos 10 anos contando a mesma história na mesa de bar...
Aguardo por detalhes ...a qualquer dia ...no boteco mais próximo...
Sem conseguir separar a arte e realidade, vou mesmo falar e chorar na cachaça. Filomena, por Tânia Paloma, por Raposa, por Sufixo, por Filomena.
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