terça-feira, junho 17, 2008

Morrer, verbo transitivo (capítulo XI)

Alan Moonsfield, sentado em sua confortável poltrona de couro preto, toma seu costumeiro vinho tinto olhando um pouco distraído para a TV. Fica perplexo ao ouvir sobre a internação de Robert. Preocupa-se. Havia faltado da reunião da confraria. Será que essa notícia teria relação com algo que aconteceu na reunião? Teria sido de fato acidente? Ou as mortes deveriam continuar? Mas, se sim, por que está ainda vivo? Sim, deve ter sido um acidente... Melhor pensar em outra coisa.

Admira a lua através da imensa porta de vidro que dá para a varanda. Olha a novela Os beijos que sonhei para a minha boca no vale a pena ver de novo da SFIX. Vê Tânia Paloma tentando suicídio de cima do penhasco. Alan inveja a coragem de Paloma pronta para se jogar no mar. As ondas batem verdes e fortes no final do penhasco. O cenário é magnífico. Paloma diz: "Partir, deixar a ilha tão pequena, que as ondas do mar rodeiam. Fugir, buscar terras mais longe onde a alma errante caminhe. Partir." Paloma se prepara para saltar. E o capítulo termina aí.

Um frio na espinha se instala. Morte agentiva. Se pelo menos pudesse escolher a minha morte. Se eu não for propriamente adjetivado, não terei mais alternativas. Não quero de sangue imolado para Shiva.

Olha novamente a lua crescente e pensa em Pashupati, uma das primeiras representações de Shiva. O Senhor dos Animais com sua três faces, olhando o passar do tempo. Há quatro animais ao seu redor, o tigre, o elefante, o rinoceronte e o búfalo. Esses animais podem representar nossas emoções e instintos mais básicos como o orgulho, a força bruta, o ódio e a sexualidade desenfreada. Pashupati, então, é aquele que domou suas feras interiores, suas emoções e convive sabiamente com elas. Apenas aqueles que praticam os ritos dos irmãos dos animais podem ultrapassar sua animalidade.

Sua ex-esposa desrespeitou Shiva e já não pode mais controlar seus instintos. Poderia, sim, ela ser imolada, mas a confraria não deverá encontrá-la, afinal mudou de nome, de identidade. Ela é a personificação dos instintos. Sexualidade desenfreada, principalmente...

Sentiu saudades dela. Resolveu sair para vê-la dançar como Shiva.

A porta, próxima à Praça da República, já anunciava o show, com uma grande e luminosa chamada para a Rainha Lesbo. Alan entrou todo em preto, sobretudo, chapéu o óculos. Não podia ser reconhecido naquele local.

Lá estava ela, em posição de árvore invertida dançante, ao lado do costumeiro mastro. Aprendeu com Jena. Linda como sempre, com seus lábios grossos e seios fartos. Ao seu lado, quatro mulheres animalescas. Uma verdadeira visão de Pashupati ao som de Slave to Love. Olhando, como quem admira a lua, ficou por muitos minutos, apenas repetindo a lírica da música de maneira automática.

Alan permaneceu bem ao fundo, ela não o poderia ver. Estava no canto direito. Olhou em volta e no canto oposto viu o adjetivador. Ele também está aqui? Seria coincidência? Ou sabe quem é minha esposa? Aceitará ele minha proposta? Ou também coloborará para a minha total desmoralização? Ficou atordoado e resolveu sair antes de ser reconhecido.

Passou a andar pela Rua São João e a letra de Slave to Love não saia de sua cabeça:

The sky is burning
A sea of flame
Though your world is changing
I will be the same
The storm is breaking

Passou a cantarolar procurando pela lua crescente, e uma vontade imensa de morte agentiva encheu-lhe a alma. Sílabas menores...

2 Comentários:

Blogger Gigi disse...

"Slave to Love"...?! E eu que tava esperando trilha sonora do A-Ha? :D

5:49 PM  
Blogger Negrados disse...

O Capítulo XII já está no ar. Confira. E me desculpem pelo atraso. Mas tava na correria

12:44 PM  

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