sexta-feira, junho 20, 2008

Wandafuru Raifu




Já falei do filme Wandafuru Raifu aqui. Trata-se do filme japonês que mencionei anteriormente. Gostaria de falar novamente dele, pois antes falei de ouvir falar sobre o filme apenas (como contado para mim), e agora após assisti-lo.

Neste filme, o paraíso é uma única lembrança da vida.

O cineata fez esse filme pensando no pai que morreu sem memória. Neste lugar, cabe pensar no papel da memória na construção de uma identidade. Não seria simples escolher uma única memória como marca de uma vida. Fazer este recorte é tarefa dura, pois, como disse Bergson (também já citado aqui):

"...não há estado de alma, por mais simples que seja, que não mude a cada instante, pois não há consciência sem memória, não há continuação de um estado sem adição, ao sentimento presente, da lembrança de momentos passados. Nisto consiste a duração. A duração interior é a vida contínua de uma memória que prolonga o passado no presente, seja porque o presente encerra distintamente a imagem incessantemente crescente do passado, seja, mais ainda porque testemunha a carga sempre mais pesada que arrastamos atrás de nós, à medida que envelhecemos. Sem esta sobrevivência do passado no presente, não haveria duração, mas somente instantaneidade"

No filme, a memória por cada pessoa é reproduzida em uma peça de teatro filmada. E também a tomada desta única memória não é tão fácil de se conseguida. E o filme mostra isso: a confecção de uma peça e sua direção para se conseguir a meta planejada. E isso faz lembrar o que uma amigo diretor disse:

“Es allí en donde la presencia/memoria toma para mí un sentido más atractivo; cuando el cuerpo del actor es una caja de resonancia, por donde suenan – a través de sus memorias físicas – un sinnúmero de otras frecuencias, de otras memorias, de otras presencias, el actor/bailarín es como un piano en donde el teclado es su columna vertebral en la cual cada vértebra conserva la vibración de sus memorias.”

E quando a memória que se marca uma identidade não ocorreu de fato? Por exemplo, uma pessoa me disse um dia que a principal coisa da vida, que constrói sua identidade, é um tempo do qual não se lembra: de quando viveu com os pais, ainda muito pequeno. Tudo o que sabe, é reconstruído pelos relatos de outras pessoas, com alguns pequenos flashes que não sabe se viveu ou imaginou.

Acho que tudo bem ainda, se retomarmos Berson. A sua ideia básica é que a realidade é a duração: um fato existe se existe na memória. E o local em que se evidencia que a realidade é duração é a consciência, onde se unem experiência e intuição.

Assim, a tarefa do filme é a escolha da nossa duração interior. “A duração interior é a vida contínua de uma memória que prolonga o passado no presente.”

O filme é, de fato, uma bela idéia de eternidade. E uma bela idéia sobre a arte, que pode ser colocada também através das palavras de Norberto Presta, o meu amigo diretor:

“Pienso al cruce de estas memorias con otras; con las que contienen los objetos, las que producen la literatura, las culturas e historias de los otros, pienso a una contaminación de memoria que se transforme en arte, siendo que el arte es memoria.”

2 Comentários:

Blogger Gigi disse...

Só discordo de uma coisa: não é uma peça de teatro filmada! É mesmo um mini-filme. Tanto que o resultado final só é visto naquela salinha de projeção, pouco antes deles partirem para o afterlife. :)

5:16 PM  
Blogger filomena disse...

OK, é um curta!

5:36 PM  

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