Arte ainda...
Continuo pensando naquilo que eu disse outro dia: arte é a forma física daquilo que existe pré-linguagem.
Penso que aquilo que a gente considera arte é aquilo que já tomou forma. Mas o cerne da arte é o desejo anterior à forma. E encontrei hoje um poema de Adélia Prado que eu interpreto como sendo algo nesta direção: ela fala justamente da coisa que existe antes de ter nome:
Antes do Nome (Adélia Prado)
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe, os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás", o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos, se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
Essa coisa sem nome, surda-muda, é o esplêndido caos. É o cerne. Ela nomeia esta coisa de linguagem? Eu tentava falar anteriomente que a arte é algo anterior à linguagem. Mas dá para notar que também é assim para ela, porque o conceito dela de linguagem é diferente àquele de sistema/forma. Sistema simbólico é palavra para ela. Ou ainda Verbo, o filho. Ela ainda diz que a palavra é o disfarce, que entendo como a performance do desejo primitivo, este último, segundo ela, é surdo-mudo e é mais grave.
O que é esse desejo grave, afinal?
Bom, ela já disse que se entender, entende Deus. E quem entender, morre.
Tem uma entrevista da Adélia que ela diz que escrever um livro é esquecer a existência da morte.
Penso que aquilo que a gente considera arte é aquilo que já tomou forma. Mas o cerne da arte é o desejo anterior à forma. E encontrei hoje um poema de Adélia Prado que eu interpreto como sendo algo nesta direção: ela fala justamente da coisa que existe antes de ter nome:
Antes do Nome (Adélia Prado)
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe, os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás", o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos, se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
Essa coisa sem nome, surda-muda, é o esplêndido caos. É o cerne. Ela nomeia esta coisa de linguagem? Eu tentava falar anteriomente que a arte é algo anterior à linguagem. Mas dá para notar que também é assim para ela, porque o conceito dela de linguagem é diferente àquele de sistema/forma. Sistema simbólico é palavra para ela. Ou ainda Verbo, o filho. Ela ainda diz que a palavra é o disfarce, que entendo como a performance do desejo primitivo, este último, segundo ela, é surdo-mudo e é mais grave.
O que é esse desejo grave, afinal?
Bom, ela já disse que se entender, entende Deus. E quem entender, morre.
Tem uma entrevista da Adélia que ela diz que escrever um livro é esquecer a existência da morte.


3 Comentários:
Oi, Filo.
Fiquei pensando muitos dias nessa sua tese da arte estar vinculada a algo anterior à linguagem. A princípio, não concordei. Porque não consigo pensar em algo fora da linguagem sem linguagem. Isto é, para falar do anterior, do originário, do primitivo sem linguagem, só falando (com linguagem). Seria impossível na linguagem que a proposição se refira ao fato que ela traduz sem que ela mesma se repita.
Mas finalmente tive que me render às suas evidências. Porque me vi forçado a compreendê-las sob outro aspecto.
Esse outro aspecto está em outra frase de Wittgenstein, achada em Cultura e Valor, p. 43 (ou MS 122, p. 175):
"Em toda grande arte há um animal selvagem: domesticado".
O que vc chama de "o esplêndido caos" ou de "cerne", com o qual a forma expressiva da arte organicamente se vincula, parece muito com o que Wittgenstein chama ali de "animal selvagem".
Em outros lugares ele fala de "pulsões" ou "reações" a partir das quais a linguagem cresce e substitui posteriormente, encobrindo-as. Mas originalmente, no fundamento, está o ato: um grito, uma dor, uma esfuziante alegria ou um desassossego.
Em Zettel, no § 541, ele anota:
"Que quer dizer aqui a palavra 'primitivo'? Sem dúvida que este tipo de conduta é pré-lingüístico: que um jogo de linguagem se baseia nele, que é o protótipo de um modo de pensar e não o resultado do pensar."
E no mesmo Cultura e Valor, mas na p. 36 (MS 119, p. 147), ainda se encontra o seguinte:
"A origem & a forma primitiva do jogo de linguagem é uma reação; somente sobre ela é que as formas mais complicadas podem crescer. A linguagem – gostaria de dizer – é um refinamento, 'no princípio era o ato'."
Tudo isso coincide em muito com o que vc vem dizendo. O fato é que sempre me parece surpreendente a profundidade das suas reflexões, como vc encontra por outros caminhos, bem diferentes, as saídas. Depois que vc achou e apresentou, tudo parece simples - mas não é. Essa é uma lucidez, a sua, que se pode mostrar, mas não se pode dizer.
JJ.
E com isso quero dizer: não é muito fácil compreender vc - requer um trabalho. O que é gratificante.
JJ.
De fato coincide. Coincide é a palavra mesmo porque eu nunca li Wittgenstein. Mas suas palavras me encabulam porque eu nunca considerei ser profunda. Nem pensei que pudesse de fato não ser ridícula. Achei que fosse "pagar mico". Até disse isso para a Eva antes do encontro da Casa do Lago. Eu confesso que eu só estava tentanto fazer sair em palavras um sentimento que tenho, principalmente aqui no blog. Isto é, explicar um sentimento de caos interno que se acalma com a arte (vendo arte ou tentando fazer arte). Amei a frase "Em toda grande arte há um animal selvagem: domesticado". Eu sempre quis escrever literatura porque sempre senti este animal incomodantemente selvagem que me faz escrever, mas nunca consegui domesticá-lo. Eu sempre achei que se conseguisse, viraria arte. Daí fui estudar linguagem. E virei uma literata frustrada. :)
Eu agradeço suas últimas palavras. São bonitas e eu sorri porque gostei. Mas te convido para papear mais, como combinamos, e espero que não fique decepcionado comigo.
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