Extranjis na casa da Filomena

Teatro do estrangeiro é atração em Campinas
Ator basco e diretor ítalo-argentino apresentam em Campinas um espetáculo inusitado.
08/02/2009 - 15h11 . Atualizada em 08/02/2009 - 15h13
Carlota Cafiero
Agência Anhangüera de Notícias
Imagine ter os documentos retidos por algumas horas e permanecer em uma sala com dezenas de pessoas, sem saber seu próximo destino? Milhares de estrangeiros, todos os dias, passam por situação semelhante, assim como é cada vez mais comum sabermos de brasileiros barrados em aeroportos e impedidos de entrar em algum território — especialmente na Espanha, que recrudesceu o cerco a imigrantes que permanecem ilegalmente no país.
Agora, imagine passar por uma situação como essa no espaço íntimo e seguro de sua casa. Pois, ironia à parte, é um ator basco (região Norte da Espanha) radicado no Brasil, Ieltxu Martinez Ortueta, do grupo Teatro Kapota mas não Breka, que está levando para residências campineiras a experiência de “sentir-se estrangeiro” por meio da performance teatral Extranjis, experiência iniciada em 2007, durante o Festival de Teatro y Danza Contemporanea de Bilbao.
Com direção de outro estrangeiro no Brasil, o ítalo-argentino Norberto Presta, o projeto ocupa — com o consentimento do morador — uma casa ou apartamento por algumas horas e coloca os espectadores dentro da ação teatral e determinando o tempo de duração da performance. O projeto foi contemplado com o Prêmio Interações Estéticas-Residências em Pontos de Cultura da Funarte.
A reportagem do Caderno C acompanhou a estreia oficial da performance na casa da professora universitária Filomena Sandalo, na Cidade Universitária II, em Campinas, no final de janeiro. A dona da casa chegou ao “acontecimento teatral”, como prefere Ortueta, no horário estipulado, às 21h, junto dos demais espectadores — cada apresentação comporta até 20 pessoas.
No limiar entre personagem e ator, Ortueta parece, em um primeiro momento, um oficial de alfândega, mas sem a rigidez deste. Ele surge na porta de entrada com um charuto e um drinque nas mãos. Gentilmente e em língua espanhola, solicita documentos a cada um dos espectadores.
Na sala principal, deparamos com câmeras e computadores que captam e mostram, em tempo real, as pessoas na sala. Então somos convidados a nos sentar de frente para o monitor e a falar o nome completo, o lugar de nascimento e as lembranças que temos do local de origem. As pessoas sorriem um tanto encabuladas umas às outras e se dirigem timidamente para a máquina.
A partir de então, tudo começa a ficar bastante surreal. Cada um recebe um ovo no qual tem de imprimir a digital e, com ele em mãos, é encaminhado a um banheiro. Ali, pessoas até então estranhas umas às outras começam a interagir. É uma situação bem diferente da plateia normalmente passiva do teatro.


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