domingo, outubro 23, 2005

Monólogo da cigarra, parte I

« Eu acho que tem razão,
Minha Cigarra querida.
Vivo juntando mil coisas
E desperdiçando a vida.
Quem trabalha como nós
Dia e noite, noite e dia
Precisa de vez em quando
De quem lhe traga alegria! »


O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. Ai, ai ai. O calor da terra úmida se tornara intenso demais. Ai, ai, chegou a hora. De dentro dela passou a sair uma força e vozes cada vez mais altas. Ela gritava, ela gritava:

Gotas de chuva pingando
tosca vontade intata
sem alma é espalhada

Ela que havia apaziguado tão bem a vida. Seiva, terra, raiz. Tudo em seu lugar. Tudo previsível. Mas a crise chegara. Um sentimento fundo, entre as pernas, despedaçava tudo isso. Ai, ai. Ela saiu da terra. Ela gritava, ela gritava:

Gotas de serotonina
da calha veia viciada
da casa incendiada

Ao seu redor havia cheiros novos, o sangue ardia. Os olhos brilhavam. Tudo era estranho. A morte não era o que pensávamos. Não para as cigarras. E a vida arrepiava-a, como um frio de morte na barriga. E ela gritava:

Coração batendo busco
nos impulsos do seu peito
sem nome a minha fome

A fome aumentava. Quem ela escolheria?

1 Comentários:

Blogger Alexandre disse...

Legal!!!
Pena que a primeira parte do monólogo acabou bem no ápice da estória! Estratégico, ahn?!

Dou todo o apoio para a continuidade da estória.

Alexandre

11:12 PM  

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