terça-feira, outubro 25, 2005

Monólogo da cigarra, parte II

Ela sabia que a solidão é intrínsica à vida das cigarras. Ela resiste, ela vacila. Não. Ninguém. Ela repensou. Tenho que cumprir a minha sina.

Ela encontra alguém parado, olhando para ela. Adequado. Há de ser. Quero sexo selvagem. Pronto, a vida há de cumprir naturalmente seu destino.

Usou de todo seu poder de sedução. Balançou as asas, cantou:

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Ele brochou.

O que? Como pode?

Ai, ai, ai. Que merda! A morte definitivamente não é o que pensávamos.

Voou, voou. As fêmeas escolhem. Se é para morrer, pelo menos isso, vá!

Viu outro. Ai, aia, ai, que amoroso. Ela sentiu, então, uma onda de vento gigantesca. Olhou para a grama. Verde opaco. Olhou para o sol. Cegou. Foi atingida sem reação pelo seu próprio reflexo. O vento deixou tudo limpo. As asas pararam de bater. Os gritos cessaram. Não há mais vontade de vida. Ela se encheu da pior vontade de morrer.

Leitor que acredita no amor, eu sinto muito, uma cigarra precisa morrer para viver. E agora?

Senhor, dai o direito das cigarras a esta pobre mulher!

Tão próximo quanto uma imagem no espelho, ela finalmente o vira. Ilusão matéria irresistível. Ela podia o ver, mas não compreender. Quantos equívocos fornecem a razão da vida? O que é a vida sem serotonina? Viver de qual desculpa?

Ela voltou a gritar:

Gota de amor profundo
busca agora só um grito fundo

E a morte se fez vida? E a vida se fez morte?

Quando músicas me dormem enfim, reaparecendo sem cor sonho. Outro dia, crepúsculo ouro. Sempre te penso e me vejo sumir. Chegou o fim? Ela voltou a cantar:

Na treva que se fez em torno de mim
Eu vi a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.
Eu gritei.
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma.
E ninguém me atendeu.
Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno de mim
E eu caí!
As horas longas passaram.
O pavor da morte me possuiu.
No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.
Tudo quedou na prostração.
O movimento da treva cessou ante mim.
A carne fugiu.
Desapareceu devagar, sombria, indistinta,
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis
Não os bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis na balbucio da oração?
Carne que possuiu a carne onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria neste vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei...
Caminhei em rumo, para ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar,
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento...
Dá-me apenas a aurora, Senhor já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.

Caía o crepúsculo, e ela deu um triste sorriso de mártir...

Ele morreu de ataque cardíaco. Ela não gozou. Viva ainda, maldita cigarra.

Ela pensou. Vivemos em um novo tempo e num novo espaço. Temos acertar nosso fuso-horário com o mundo e descobrir nosso lugar e nosso papel neste universo cibernético. Ainda temos muito, muito a aprender... Ninguém jamais ouvirá o grito das cigarras da mesma forma. Julietas do mundo, uni-vos! A luta continua...

2 Comentários:

Blogger Alexandre disse...

Ficou legal o monólogo! Acima de tudo, o drama da pobre cigarrinha convence... gostei também das inserções em verso, isso é bastante original (pelo menos nunca vi num monólogo antes).

Ah, e deixe preparada sua apresentação, ela fará parte do serviço VIP do GFD Entertainment Ltda!

11:24 PM  
Blogger filomena disse...

Não acabou ainda, não. O terceiro capítulo virá em breve. A cigarra ainda nem morreu...

11:41 AM  

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