Morrer, verbo transitivo (Capítulo 5)
“E as fadas
As fadas também existem
São minhas namoradas
Me beijam pela manhã”
Tocava Cazuza e dava para ouvir na varanda. Na mesinha, um livro recém publicado, Rinoglotofilia, uma proposta de debucalização. Ele estava deitado ao lado do livro olhando o céu e falava consigo mesmo.
Sou peixe de águas salgadas. Nadei por prazer de liberdade até o mar alto. E a correnteza é forte demais. Não sei voltar e não sei aonde ir. A água me joga para onde quiser e eu tenho medo de me machucar. Melhor seria mesmo se me machucasse. Para encontrar finalmente o nada que procuro. Como seria? Afundaria até o frio infinito escuro, ou seria jogado de volta para a areia da praia? Queria ir para a areia da praia. No sol, em areia fervendo, com a carne ardendo queimada sendo comida por larvas comigo ainda vivo.
Você não basta para mim. É sempre a mesma frase me machucando.
Sinto-me um sepulcro fechado. As estrelas, as eternas estrelas. Tem uma tão fraquinha que que acho que jamais alguém viu.
Por que de novo está acontecendo isso comigo? Acho que gente pergunta isso só para as coisas que não gosta. Bom, provavelmente porque ainda não aprendi a lidar com essa situação. E a vida se repete sempre, “porque isso não vai parar, isso não vai parar, isso não vai parar, até você se tocar".
Quero chuva de sapos. Que acontece, acontece. Choveu sapo em 1873 em Kansas City. Sangue em 1890 na Itália. Peixe em 1861 em Singapura. Que século de chuvas bizarras! Sapos significam o 'letting go'. Let it go! Again, again, again… Frogs washing over me.
Eu continuo amando o céu com estrelas, quem sabe cai uma estrela cadente. Um cometa? Mas eu continuo sentindo muito, intensamente, dolorosamente e sem fim. Quando dói, dói, dói. Quando fico feliz, o mundo me engole. Uma noite estrelada vale a dor do mundo, foi a Adélia Prado quem disse, acho.
Quem sabe sapos chovem. A lua está cheia.
Nada.
Fui fazer yoga hoje. A lua é um mistério. As estrelas.
...
“Mas existem também drogas pra dormir
E ver os perigos no meio do mar
No sono pesado, tudo meio drogado
Existem pessoas turvas, pessoas que gostam”
Arundhati. Os homens normais acham muito difícil, de fato quase impossível, ver esta estrela por ser tão fraca. Lembro de minha aula de línguas indígenas de quando ainda era aluno de Letras. Sabe que havia uma moça do Chaco que amava Plêiades? Um dia Plêiades veio ao mundo e o milho foi criado no Chaco. Um dia ele foi embora, de volta para o céu, e ela virou orquídea. Foi assim que a orquídea passou a existir na terra. Foi assim que a teologia apofástica fez sentido na minha vida. Nessa língua é possível conjugar na voz antipassiva. É uma voz contrária à passiva. Traz um sentimento de incompletude, de não afetar de fato o seu objeto. Inemata quer dizer te amo à distância e sem te ver. Inejigota é eu te como com os olhos.
Sinto que tem alguém me seguindo. Me acusam de ser composto por um pé degenerado. Degenerado? Falam que busco sílabas menores, sem ataque, com boas codas bissilábicas. Mas sou mal compreendido. Quero a palavra apenas. A palavra divina. Ser sufixado a ela.
É língua materna pela população de Mattur no Karnataka. Tudo faz sentido agora. Fugir. Quem me persegue? Sou inocente. Mal compreendido. Azul e amarelo... Mattur...
Sai do jardim. Olha, então, para a capa de seu livro recém publicado. Embaixo do título, seu nome, Alan A. Moonsfield. Mais à esquerda, um revólver.
Gotas de suor pingando. Gotejando lento. A cabeça confusa recebia ao mesmo tempo sua dose de café e nicotina, de cocaína. Acende um baseado para dormir.
“Senhores deuses, me protejam
De tanta mágoa
Tô pronto para ir ao teu encontro
Mas não quero, não vou, não quero
Não quero, não vou, não quero”
(para leitura completa do folhetim como está até agora, visite www.negrados.wordpress.com)
As fadas também existem
São minhas namoradas
Me beijam pela manhã”
Tocava Cazuza e dava para ouvir na varanda. Na mesinha, um livro recém publicado, Rinoglotofilia, uma proposta de debucalização. Ele estava deitado ao lado do livro olhando o céu e falava consigo mesmo.
Sou peixe de águas salgadas. Nadei por prazer de liberdade até o mar alto. E a correnteza é forte demais. Não sei voltar e não sei aonde ir. A água me joga para onde quiser e eu tenho medo de me machucar. Melhor seria mesmo se me machucasse. Para encontrar finalmente o nada que procuro. Como seria? Afundaria até o frio infinito escuro, ou seria jogado de volta para a areia da praia? Queria ir para a areia da praia. No sol, em areia fervendo, com a carne ardendo queimada sendo comida por larvas comigo ainda vivo.
Você não basta para mim. É sempre a mesma frase me machucando.
Sinto-me um sepulcro fechado. As estrelas, as eternas estrelas. Tem uma tão fraquinha que que acho que jamais alguém viu.
Por que de novo está acontecendo isso comigo? Acho que gente pergunta isso só para as coisas que não gosta. Bom, provavelmente porque ainda não aprendi a lidar com essa situação. E a vida se repete sempre, “porque isso não vai parar, isso não vai parar, isso não vai parar, até você se tocar".
Quero chuva de sapos. Que acontece, acontece. Choveu sapo em 1873 em Kansas City. Sangue em 1890 na Itália. Peixe em 1861 em Singapura. Que século de chuvas bizarras! Sapos significam o 'letting go'. Let it go! Again, again, again… Frogs washing over me.
Eu continuo amando o céu com estrelas, quem sabe cai uma estrela cadente. Um cometa? Mas eu continuo sentindo muito, intensamente, dolorosamente e sem fim. Quando dói, dói, dói. Quando fico feliz, o mundo me engole. Uma noite estrelada vale a dor do mundo, foi a Adélia Prado quem disse, acho.
Quem sabe sapos chovem. A lua está cheia.
Nada.
Fui fazer yoga hoje. A lua é um mistério. As estrelas.
...
“Mas existem também drogas pra dormir
E ver os perigos no meio do mar
No sono pesado, tudo meio drogado
Existem pessoas turvas, pessoas que gostam”
Arundhati. Os homens normais acham muito difícil, de fato quase impossível, ver esta estrela por ser tão fraca. Lembro de minha aula de línguas indígenas de quando ainda era aluno de Letras. Sabe que havia uma moça do Chaco que amava Plêiades? Um dia Plêiades veio ao mundo e o milho foi criado no Chaco. Um dia ele foi embora, de volta para o céu, e ela virou orquídea. Foi assim que a orquídea passou a existir na terra. Foi assim que a teologia apofástica fez sentido na minha vida. Nessa língua é possível conjugar na voz antipassiva. É uma voz contrária à passiva. Traz um sentimento de incompletude, de não afetar de fato o seu objeto. Inemata quer dizer te amo à distância e sem te ver. Inejigota é eu te como com os olhos.
Sinto que tem alguém me seguindo. Me acusam de ser composto por um pé degenerado. Degenerado? Falam que busco sílabas menores, sem ataque, com boas codas bissilábicas. Mas sou mal compreendido. Quero a palavra apenas. A palavra divina. Ser sufixado a ela.
É língua materna pela população de Mattur no Karnataka. Tudo faz sentido agora. Fugir. Quem me persegue? Sou inocente. Mal compreendido. Azul e amarelo... Mattur...
Sai do jardim. Olha, então, para a capa de seu livro recém publicado. Embaixo do título, seu nome, Alan A. Moonsfield. Mais à esquerda, um revólver.
Gotas de suor pingando. Gotejando lento. A cabeça confusa recebia ao mesmo tempo sua dose de café e nicotina, de cocaína. Acende um baseado para dormir.
“Senhores deuses, me protejam
De tanta mágoa
Tô pronto para ir ao teu encontro
Mas não quero, não vou, não quero
Não quero, não vou, não quero”
(para leitura completa do folhetim como está até agora, visite www.negrados.wordpress.com)


2 Comentários:
Vixe Maria! Só hoje tive tempo de ler o capítulo 5. Nossa, ficou difícil. Nao vejo o link com o que vinha sendo contado até entao. Sei nao se conseguirei dar continuidade...
Morrer, Verbo Transitivo.
O Capítulo VI já está no ar
Confira clicando no link abaixo
http://negrados.wordpress.com/2008/05/22/morrer-verbo-transitivo-cap-vi/
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