sábado, outubro 29, 2005

Monólogo da cigarra, parte III

A cigarra se deprime. Mas é possível morrer de amor veramente?

Vai ao oráculo. Lembra, então, de um sentimento que teve ainda lá, na vida embaixo da terra. Ela canta:

Eu tô plugado na vida.
Eu tô curando a ferida.
Às vezes eu me sinto uma mola encolhida

Sente um cheiro de terra seca ao sol e canta desesperadamente:

Meu amor eu queria hoje escrever-te um poema simples,
de sentimento com saber de sol.
Inteiro e cheio de cor de terra molhada,
discurso perfeito que não se abala.
Mas o simples
é deixar as vidas trancadas,
para sempre enterradas em um buraco de terra ao ardor do sol.
Porque nenhuma cor é mais escura que daquela fenda seca,
onde tua sina está perdida,
em que te transformas em nada.
Simples agora
é o simples dizer que não te quero.
E concluir que nenhuma ausência pode ser tão funda e escura que a tua.
Onde estás sentimento de amor?
Não és agora mais que pó ao vento.

Ainda em desespero, toma a poção encantada que dá luz e sabedoria. Vivencia o delírio. O delírio de que é possível refazer as experiências fundamentais da paixão; ali vivenciadas de um modo irreal, ficcional, poético. De modo algum, entretanto, inautêntico.

Canta novamente:

Eu já nem me lembro, tanto tempo faz. Mas eu não me esqueço que te amei demais. Te amo ainda, porra.

Morre-se ou não de amor?

Vem uma voz dentro de seu delírio:

Se se morre de amor! - Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!

Não. Não falo deste sentimento. Falas da vertigem, da tontura, de uma sensação de redemoinho. Excitação, porém, e não enlevo e encanto. E desse amor não se morre. Porque isso amor não é.

E como se sabe que não é amor? A voz do oráculo argumenta:

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Sinto, mas sem alma a sensação é de vazio tão logo a sensação fascinante, excitante, delirante, desaparece. Assim que a orquestra emite o último acorde, vem à tona o tédio, sente-se o mais profundo cansaço. Desse amor ninguém morre.

Neste momento ela ouve um canto:

Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu'olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d'lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

Ah, entendo agora, diz a cigarra. A alma morre. Isso é amor.

Melhor matar o corpo, então, pois a alma está morta antes dele.

Ela pensa em seu amado, que acredita para sempre enterrado em um buraco de terra ao ardor do sol. Ela grita com saudade para com ele finalmente se acasalar:

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens!
Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

2 Comentários:

Blogger Alexandre disse...

Legal!!! Adorei, de verdade. Agora é ensaiar e mostrar pra gente (e pro resto para quem é inédito). Afinal, é preciso abrir mais genellas nesse mundo. A próxima pode ser aqui em casa, é só combinar com todo mundo (ou simplesmente aparecer?)

12:59 AM  
Blogger filomena disse...

Ótimo! Mas creio que o pedido deve ser por telefone a uma dada central telefônica móvel. Então as genellas se abrem.

9:26 AM  

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