terça-feira, setembro 16, 2008

Estudo uma lição, e para aprendê-la de cor leio-a primeiramente escandindo cada verso; repito-a em seguida um certo número de vezes. A cada nova leitura efetua-se um progresso; as palavras ligam-se cada vez melhor; acabam por se organizar juntas. Nesse momento preciso sei minha lição de cor; dizemos que ela tornou-se lembrança, que ela se imprimiu em minha memória.
Examino agora de que modo a lição foi aprendida, e me represento as fases pelas quais passei sucessivamente. Cada uma das leituras sucessivas volta-me então ao espírito com sua individualidade própria; revejo-a com as circunstâncias que a acompanhavam e que a enquadram ainda; ela se distingue das precedentes e das subseqüentes pela própria posição que ocupou no tempo; em suma, cada uma dessas leituras torna a passar diante de mim como um acontecimento determinado de minha história. Dir-se-á ainda que essas imagens são lembranças, que elas se imprimiram em minha memória. Empregam-se as mesmas palavras em ambos os casos. Trata-se efetivamente da mesma coisa?
(BERGSON, 1999:85-6)

Não, obviamente. Bergson estabelece uma diferença entre dois tipos de memória:

1. A memória automática que é corporal.

2. A memória pura que se constitui por lembranças independentes.


A segunda é criadora de história. E só se cria dependendo da importância interior. É a segunda que faz memória ser fato e vice-versa (para Bergson, FATO existe se existe na memória como duração). Se ela não ocorrer, a primeira, corporal, apaga-se. O impulso vital de Bergson está na duração. Se algo impede a construção de (2), eu entendo que o fato deixa de existir.

Voltando ao caso da falta de transparência citado ontem. Foi uma lição que estudei bem. Mas que criou fato apagado. Mudou o estado de consciência.

... a multiplicidade dos estados de consciência, considerada em sua pureza original, não apresenta nenhuma semelhança com a multiplicidade distinta que forma um número. Haveria aí, dizíamos, uma multiplicidade qualitativa. Em suma, seria preciso admitir duas espécies de multiplicidades, dois sentidos possíveis para a palavra distinguir, duas concepções, uma qualitativa e a outra quantitativa, da diferença entre o mesmo e o outro.
(BERGSON, 2006b:12)

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