segunda-feira, outubro 27, 2008

Palavras vs silêncio

SILÊNCIO

Clarice Lispector



É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar.

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.

A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.

Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.

Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.

O coração bate ao reconhecê-lo.

Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.

Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.

Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.

Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.

Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.

Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.



Clarice Lispector- "Onde estivestes de noite?"
7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994

quarta-feira, outubro 22, 2008

Vi atribuído a Nietzsche (não sei se é verdade, porque li muito pouco dele) o seguinte pensamento:

O tempo se estende infinitamente para trás por toda a eternidade. Ora, se o tempo se estende infinitamente para trás, tudo que pode acontecer já deve ter acontecido antes. Tudo que se passa agora deve ter ocorrido desta forma antes. E se o tempo se estende infinitamente para trás também deverá se estender infinitamente para frente. Assim, todos os estados possíveis já devem ter ocorrido, e o estado presente deve ser uma repetição. E igualmente aquele que lhe deu origem e o que dele decorre, e assim sucessivamente de volta ao passado e à frente no futuro.

Contar coisas somente tem função fática, portanto. Tudo é repetição, nada é novo. Palavras não são novas, servem para estabelecer algum elo entre partículas do universo meramente.

Hoje, este pensamento chega a dar certo acalento...

Mas eu juro que tenho algo novo para contar. Deve ter alguma originalidade, não é possível! Não pelas palavras, que estas já devem ter sido contadas e serão ainda contadas na infinitude do tempo. Mas o que minha filha de onze anos me contou, aos onze anos, deve ser novo dada a idade. E quer obviamente contar ao universo, colocar no orkut (colocou, aliás, ainda bem que o Rodrigo viu logo e apagou). Verdade que há uma repetição. Os adolescentes (ou pré-adolescentes) têm a obrigação de barbarizar a mãe. E dado que eu não sou uma mãe fácil de barbarizar, tem que barbarizar mesmo. Pegar pesado, inclusive no mundo público, senão faz pouco efeito. Eu nunca pensei que seria surpreendida, assim, tão rapidamente. Só onze anos. Não sei como lidar. Deve ter alguma originalidade...

Assim, contar ao universo estas palavras só podem ter a função de reconhecer minha perda de chão. Deve ser repetição. Gritem comigo insetos malditos, já que não tenho nenhuma articulação humana para o momento.

domingo, outubro 19, 2008

"Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa..."

sexta-feira, outubro 17, 2008

Colorless life

A Gigi concedeu (por acidente, é verdade) a minha alma ao [vo] do Chomsky. Ela queria dizer Vaux, mas o uso da preposição acabou me levando ao avô mesmo. “Eita vidinha mais ou menos!”, como disse o Sebatian. Pensem no homem e agora pensem no avô dele. Mais ou menos é generosidade...

Assim sendo, sinto mais que justificada em pintar parte do cabelo de vermelho sangue. Há de restar algum tipo de cor...

domingo, outubro 12, 2008

vermelho