segunda-feira, outubro 31, 2005
Quinta passada uma amiga me convidou para ir no Rudá. Fomos. Festinha de boys. Demonstração de sarados e saradas e celulares caros. Na sexta e sábado fui com outra amiga em uma seminário do IFCH sobre midia. Pseudo periferia. Claro que estávamos de fantasia em ambas as ocasições, para parecermos com o grupo e passarmos desapercebidas. Velho, falaram de tudo com muitas críticas ao sistema dominante. E a periferia (:)) crítica usando laptops como caderno (apple!) e criando imagens legais para o telão. No meio da fala, serviram banana nanica. Para a larica ou para falas malas? Sei lá. Mas gostei da banana. Ponto legal. Ainda têm a visão do índio do romantismo. Populações democráticas, com sábio pajé e muita alegria!! O melhor foi que achavam onda xemelizar tudo. Hã? XEMELIZAR. XML-izar! É, legal! Mas já não é tão novidade, velhos. Uns dois caras pegaram o microfone e não soltaram mais. Um finalmente lembrou que estávamos lá para falar de populações diferentes. Passou, então a falar sobre si. O pessoal da mesa não falou, não deu. Democracia é isso? Gostei dos cabelos! E dai quase sofri um desmaio! Como? É tão ridículo que fica para a próxima. Eita final de semana do caralho! Dá muita banana!
sábado, outubro 29, 2005
Monólogo da cigarra, parte III
A cigarra se deprime. Mas é possível morrer de amor veramente?
Vai ao oráculo. Lembra, então, de um sentimento que teve ainda lá, na vida embaixo da terra. Ela canta:
Eu tô plugado na vida.
Eu tô curando a ferida.
Às vezes eu me sinto uma mola encolhida
Sente um cheiro de terra seca ao sol e canta desesperadamente:
Meu amor eu queria hoje escrever-te um poema simples,
de sentimento com saber de sol.
Inteiro e cheio de cor de terra molhada,
discurso perfeito que não se abala.
Mas o simples
é deixar as vidas trancadas,
para sempre enterradas em um buraco de terra ao ardor do sol.
Porque nenhuma cor é mais escura que daquela fenda seca,
onde tua sina está perdida,
em que te transformas em nada.
Simples agora
é o simples dizer que não te quero.
E concluir que nenhuma ausência pode ser tão funda e escura que a tua.
Onde estás sentimento de amor?
Não és agora mais que pó ao vento.
Ainda em desespero, toma a poção encantada que dá luz e sabedoria. Vivencia o delírio. O delírio de que é possível refazer as experiências fundamentais da paixão; ali vivenciadas de um modo irreal, ficcional, poético. De modo algum, entretanto, inautêntico.
Canta novamente:
Eu já nem me lembro, tanto tempo faz. Mas eu não me esqueço que te amei demais. Te amo ainda, porra.
Morre-se ou não de amor?
Vem uma voz dentro de seu delírio:
Se se morre de amor! - Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!
Não. Não falo deste sentimento. Falas da vertigem, da tontura, de uma sensação de redemoinho. Excitação, porém, e não enlevo e encanto. E desse amor não se morre. Porque isso amor não é.
E como se sabe que não é amor? A voz do oráculo argumenta:
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Sinto, mas sem alma a sensação é de vazio tão logo a sensação fascinante, excitante, delirante, desaparece. Assim que a orquestra emite o último acorde, vem à tona o tédio, sente-se o mais profundo cansaço. Desse amor ninguém morre.
Neste momento ela ouve um canto:
Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu'olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d'lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!
Ah, entendo agora, diz a cigarra. A alma morre. Isso é amor.
Melhor matar o corpo, então, pois a alma está morta antes dele.
Ela pensa em seu amado, que acredita para sempre enterrado em um buraco de terra ao ardor do sol. Ela grita com saudade para com ele finalmente se acasalar:
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens!
Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Vai ao oráculo. Lembra, então, de um sentimento que teve ainda lá, na vida embaixo da terra. Ela canta:
Eu tô plugado na vida.
Eu tô curando a ferida.
Às vezes eu me sinto uma mola encolhida
Sente um cheiro de terra seca ao sol e canta desesperadamente:
Meu amor eu queria hoje escrever-te um poema simples,
de sentimento com saber de sol.
Inteiro e cheio de cor de terra molhada,
discurso perfeito que não se abala.
Mas o simples
é deixar as vidas trancadas,
para sempre enterradas em um buraco de terra ao ardor do sol.
Porque nenhuma cor é mais escura que daquela fenda seca,
onde tua sina está perdida,
em que te transformas em nada.
Simples agora
é o simples dizer que não te quero.
E concluir que nenhuma ausência pode ser tão funda e escura que a tua.
Onde estás sentimento de amor?
Não és agora mais que pó ao vento.
Ainda em desespero, toma a poção encantada que dá luz e sabedoria. Vivencia o delírio. O delírio de que é possível refazer as experiências fundamentais da paixão; ali vivenciadas de um modo irreal, ficcional, poético. De modo algum, entretanto, inautêntico.
Canta novamente:
Eu já nem me lembro, tanto tempo faz. Mas eu não me esqueço que te amei demais. Te amo ainda, porra.
Morre-se ou não de amor?
Vem uma voz dentro de seu delírio:
Se se morre de amor! - Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!
Não. Não falo deste sentimento. Falas da vertigem, da tontura, de uma sensação de redemoinho. Excitação, porém, e não enlevo e encanto. E desse amor não se morre. Porque isso amor não é.
E como se sabe que não é amor? A voz do oráculo argumenta:
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Sinto, mas sem alma a sensação é de vazio tão logo a sensação fascinante, excitante, delirante, desaparece. Assim que a orquestra emite o último acorde, vem à tona o tédio, sente-se o mais profundo cansaço. Desse amor ninguém morre.
Neste momento ela ouve um canto:
Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu'olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d'lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!
Ah, entendo agora, diz a cigarra. A alma morre. Isso é amor.
Melhor matar o corpo, então, pois a alma está morta antes dele.
Ela pensa em seu amado, que acredita para sempre enterrado em um buraco de terra ao ardor do sol. Ela grita com saudade para com ele finalmente se acasalar:
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens!
Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
quarta-feira, outubro 26, 2005
Paramos nossa programação regular do Monólogo da cigarra para pronunciamento científico.
Origem: Wikipédia
Cigarra é um inseto inofensivo que emite um som característico para o acasalamento. Possuem um "bico" comprido para se alimentar da seiva de árvores e plantas onde normalmente vivem. Designação comum aos insetos homópteros da família dos cicadídeos, que reúne os maiores representantes da ordem, notáveis devido à cantoria entoada pelos machos, os machos destes insetos possuem aparelho estridulatório, situado nos lados do primeiro segmento abdominal, emitindo cada espécie som característico.
---
Ué, será que só o macho morre? A cigarra sobreviverá?
Origem: Wikipédia
Cigarra é um inseto inofensivo que emite um som característico para o acasalamento. Possuem um "bico" comprido para se alimentar da seiva de árvores e plantas onde normalmente vivem. Designação comum aos insetos homópteros da família dos cicadídeos, que reúne os maiores representantes da ordem, notáveis devido à cantoria entoada pelos machos, os machos destes insetos possuem aparelho estridulatório, situado nos lados do primeiro segmento abdominal, emitindo cada espécie som característico.
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Ué, será que só o macho morre? A cigarra sobreviverá?
terça-feira, outubro 25, 2005
Monólogo da cigarra, parte II
Ela sabia que a solidão é intrínsica à vida das cigarras. Ela resiste, ela vacila. Não. Ninguém. Ela repensou. Tenho que cumprir a minha sina.
Ela encontra alguém parado, olhando para ela. Adequado. Há de ser. Quero sexo selvagem. Pronto, a vida há de cumprir naturalmente seu destino.
Usou de todo seu poder de sedução. Balançou as asas, cantou:
Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!
Ele brochou.
O que? Como pode?
Ai, ai, ai. Que merda! A morte definitivamente não é o que pensávamos.
Voou, voou. As fêmeas escolhem. Se é para morrer, pelo menos isso, vá!
Viu outro. Ai, aia, ai, que amoroso. Ela sentiu, então, uma onda de vento gigantesca. Olhou para a grama. Verde opaco. Olhou para o sol. Cegou. Foi atingida sem reação pelo seu próprio reflexo. O vento deixou tudo limpo. As asas pararam de bater. Os gritos cessaram. Não há mais vontade de vida. Ela se encheu da pior vontade de morrer.
Leitor que acredita no amor, eu sinto muito, uma cigarra precisa morrer para viver. E agora?
Senhor, dai o direito das cigarras a esta pobre mulher!
Tão próximo quanto uma imagem no espelho, ela finalmente o vira. Ilusão matéria irresistível. Ela podia o ver, mas não compreender. Quantos equívocos fornecem a razão da vida? O que é a vida sem serotonina? Viver de qual desculpa?
Ela voltou a gritar:
Gota de amor profundo
busca agora só um grito fundo
E a morte se fez vida? E a vida se fez morte?
Quando músicas me dormem enfim, reaparecendo sem cor sonho. Outro dia, crepúsculo ouro. Sempre te penso e me vejo sumir. Chegou o fim? Ela voltou a cantar:
Na treva que se fez em torno de mim
Eu vi a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.
Eu gritei.
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma.
E ninguém me atendeu.
Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno de mim
E eu caí!
As horas longas passaram.
O pavor da morte me possuiu.
No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.
Tudo quedou na prostração.
O movimento da treva cessou ante mim.
A carne fugiu.
Desapareceu devagar, sombria, indistinta,
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis
Não os bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis na balbucio da oração?
Carne que possuiu a carne onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria neste vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei...
Caminhei em rumo, para ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar,
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento...
Dá-me apenas a aurora, Senhor já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.
Caía o crepúsculo, e ela deu um triste sorriso de mártir...
Ele morreu de ataque cardíaco. Ela não gozou. Viva ainda, maldita cigarra.
Ela pensou. Vivemos em um novo tempo e num novo espaço. Temos acertar nosso fuso-horário com o mundo e descobrir nosso lugar e nosso papel neste universo cibernético. Ainda temos muito, muito a aprender... Ninguém jamais ouvirá o grito das cigarras da mesma forma. Julietas do mundo, uni-vos! A luta continua...
Ela encontra alguém parado, olhando para ela. Adequado. Há de ser. Quero sexo selvagem. Pronto, a vida há de cumprir naturalmente seu destino.
Usou de todo seu poder de sedução. Balançou as asas, cantou:
Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!
Ele brochou.
O que? Como pode?
Ai, ai, ai. Que merda! A morte definitivamente não é o que pensávamos.
Voou, voou. As fêmeas escolhem. Se é para morrer, pelo menos isso, vá!
Viu outro. Ai, aia, ai, que amoroso. Ela sentiu, então, uma onda de vento gigantesca. Olhou para a grama. Verde opaco. Olhou para o sol. Cegou. Foi atingida sem reação pelo seu próprio reflexo. O vento deixou tudo limpo. As asas pararam de bater. Os gritos cessaram. Não há mais vontade de vida. Ela se encheu da pior vontade de morrer.
Leitor que acredita no amor, eu sinto muito, uma cigarra precisa morrer para viver. E agora?
Senhor, dai o direito das cigarras a esta pobre mulher!
Tão próximo quanto uma imagem no espelho, ela finalmente o vira. Ilusão matéria irresistível. Ela podia o ver, mas não compreender. Quantos equívocos fornecem a razão da vida? O que é a vida sem serotonina? Viver de qual desculpa?
Ela voltou a gritar:
Gota de amor profundo
busca agora só um grito fundo
E a morte se fez vida? E a vida se fez morte?
Quando músicas me dormem enfim, reaparecendo sem cor sonho. Outro dia, crepúsculo ouro. Sempre te penso e me vejo sumir. Chegou o fim? Ela voltou a cantar:
Na treva que se fez em torno de mim
Eu vi a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.
Eu gritei.
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma.
E ninguém me atendeu.
Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno de mim
E eu caí!
As horas longas passaram.
O pavor da morte me possuiu.
No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.
Tudo quedou na prostração.
O movimento da treva cessou ante mim.
A carne fugiu.
Desapareceu devagar, sombria, indistinta,
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis
Não os bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis na balbucio da oração?
Carne que possuiu a carne onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria neste vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei...
Caminhei em rumo, para ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar,
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento...
Dá-me apenas a aurora, Senhor já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.
Caía o crepúsculo, e ela deu um triste sorriso de mártir...
Ele morreu de ataque cardíaco. Ela não gozou. Viva ainda, maldita cigarra.
Ela pensou. Vivemos em um novo tempo e num novo espaço. Temos acertar nosso fuso-horário com o mundo e descobrir nosso lugar e nosso papel neste universo cibernético. Ainda temos muito, muito a aprender... Ninguém jamais ouvirá o grito das cigarras da mesma forma. Julietas do mundo, uni-vos! A luta continua...
domingo, outubro 23, 2005
Monólogo da cigarra, parte I
« Eu acho que tem razão,
Minha Cigarra querida.
Vivo juntando mil coisas
E desperdiçando a vida.
Quem trabalha como nós
Dia e noite, noite e dia
Precisa de vez em quando
De quem lhe traga alegria! »
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. Ai, ai ai. O calor da terra úmida se tornara intenso demais. Ai, ai, chegou a hora. De dentro dela passou a sair uma força e vozes cada vez mais altas. Ela gritava, ela gritava:
Gotas de chuva pingando
tosca vontade intata
sem alma é espalhada
Ela que havia apaziguado tão bem a vida. Seiva, terra, raiz. Tudo em seu lugar. Tudo previsível. Mas a crise chegara. Um sentimento fundo, entre as pernas, despedaçava tudo isso. Ai, ai. Ela saiu da terra. Ela gritava, ela gritava:
Gotas de serotonina
da calha veia viciada
da casa incendiada
Ao seu redor havia cheiros novos, o sangue ardia. Os olhos brilhavam. Tudo era estranho. A morte não era o que pensávamos. Não para as cigarras. E a vida arrepiava-a, como um frio de morte na barriga. E ela gritava:
Coração batendo busco
nos impulsos do seu peito
sem nome a minha fome
A fome aumentava. Quem ela escolheria?
Minha Cigarra querida.
Vivo juntando mil coisas
E desperdiçando a vida.
Quem trabalha como nós
Dia e noite, noite e dia
Precisa de vez em quando
De quem lhe traga alegria! »
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. Ai, ai ai. O calor da terra úmida se tornara intenso demais. Ai, ai, chegou a hora. De dentro dela passou a sair uma força e vozes cada vez mais altas. Ela gritava, ela gritava:
Gotas de chuva pingando
tosca vontade intata
sem alma é espalhada
Ela que havia apaziguado tão bem a vida. Seiva, terra, raiz. Tudo em seu lugar. Tudo previsível. Mas a crise chegara. Um sentimento fundo, entre as pernas, despedaçava tudo isso. Ai, ai. Ela saiu da terra. Ela gritava, ela gritava:
Gotas de serotonina
da calha veia viciada
da casa incendiada
Ao seu redor havia cheiros novos, o sangue ardia. Os olhos brilhavam. Tudo era estranho. A morte não era o que pensávamos. Não para as cigarras. E a vida arrepiava-a, como um frio de morte na barriga. E ela gritava:
Coração batendo busco
nos impulsos do seu peito
sem nome a minha fome
A fome aumentava. Quem ela escolheria?
quinta-feira, outubro 20, 2005
É pra rir ou chorar?
Enquanto a tragédia grega era fundamentada na temática mitológica, a comédia não tinha nenhum padrão rígido e tendia a criar situações absurdas e, dentro destas, elaborar uma crítica aos costumes da época. O que está acontecendo? Que comédia!
quarta-feira, outubro 19, 2005
Resposta ao mundo
Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei
Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, sei eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei
E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro sozinhos
Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver
No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer
No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei
Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, sei eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei
E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro sozinhos
Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver
No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer
No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer
segunda-feira, outubro 10, 2005
Espelho mágico
Quando eu era adolescente em Araras, sentia-me muito diferente de todos. Decidi ir embora para procurar gente igual a mim. Não achei, e decidi trabalhar com índios. Quem sabe se no bem diferente, eu não encontraria o meu igual. Pensei, então, que diferença, na verdade, não existe. É fruto de concepções deterioradas do egocentrismo. Decidi ir mais longe, para ver mais culturas estranhas, e fui para o exterior. Reafirmei minha posição. Tive uma filha com deficiência enquanto morava no exterior. Passei a viver o ser-diferente-na-cabeça-dos- outros. Voltei para Araras. Voltei para Campinas. Deixei completamente de acreditar que diferenças são reais. Tudo é muito igual. As pessoas é que se olham por um espelho de parque de diversão, que distorce tudo. Hoje acho que este é meu mal e causa da minha dor, mas não dá mais para acreditar no espelho que sei refletir imagens distorcidas do mundo.
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"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: Quero é uma verdade inventada."
Clarice Lispector
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"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: Quero é uma verdade inventada."
Clarice Lispector
As duas mãos quebradas
É um saco não ter nenhum sonho. Tô cansada...
Pus o meu sonho num navio e
o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles
Pus o meu sonho num navio e
o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles
domingo, outubro 09, 2005
Blog em crise
Quem já viu o blog do Chomsky? http://blog.zmag.org/ttt/
Quem quiser ver um blog bom, vá lá. Quem quiser ver um blog ruim, pode continuar aqui. What a shame! :(
Quem quiser ver um blog bom, vá lá. Quem quiser ver um blog ruim, pode continuar aqui. What a shame! :(
quinta-feira, outubro 06, 2005
A vontade de beleza kadiwéu
Hoje minha pele mudou por minha própria opção. Fiz a escolha de uma artista kadiwéu retratada por Darcy Ribeiro. Havia muita gente estranha lá. Talvez eu seja também. Tudo bem, estou bem feliz e a história que a dor é horrível é pura lenda. O difícil pode ser parar agora.
"Os antigos ideias da cultura Kadiwéu que honraram no homem a coragem, o herói, e na mulher o virtuosismo, a artista, continuam vivos apenas para elas. Não é de estranhar, portanto, que a mulher seja a artista criadora por excelência; um ou outro homem pode ter aptidões e virtuosismos reconhecidos por todos, mas os verdadeiros artistas são sempre as mulheres. E a expectativa geral é de que a emulação por obras cada vez mais perfeitas se faça sobretudo entre elas."
Darcy Ribeiro
Minha vida de índio fica agora marcada em meu corpo para sempre...
"Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, a ferro e fogo
Em carne viva
Corações de mães, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sente"
QUE PERFEITO QUE FICOU!
"Os antigos ideias da cultura Kadiwéu que honraram no homem a coragem, o herói, e na mulher o virtuosismo, a artista, continuam vivos apenas para elas. Não é de estranhar, portanto, que a mulher seja a artista criadora por excelência; um ou outro homem pode ter aptidões e virtuosismos reconhecidos por todos, mas os verdadeiros artistas são sempre as mulheres. E a expectativa geral é de que a emulação por obras cada vez mais perfeitas se faça sobretudo entre elas."
Darcy Ribeiro
Minha vida de índio fica agora marcada em meu corpo para sempre...
"Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, a ferro e fogo
Em carne viva
Corações de mães, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sente"
QUE PERFEITO QUE FICOU!
Crônica de marte
Quando estávamos em Belém fomos informadas que seria possível avistar marte. Quando estava em Belém, como já disse, no dia de vir embora, eu e Flávia bebemos demais. Tanto que confundimos uma luz de torre com...marte!!! Tenho foto para quem não acreditar. Basta se avermelhado para ser marte... Eita cabeças para acreditar em qualquer coisa!
quarta-feira, outubro 05, 2005
terça-feira, outubro 04, 2005
Ao PS, comentário
PS disse "em que medida o sofrimento psíquico de um sujeito deve ser relacionado com um defeito de sua percepção e de seu entendimento do mundo? Em 1979, foi publicada uma experiência (Abramson e Alloy, "Journal of Experimental Psychology", vol. 108, nº 4), na qual dois grupos de sujeitos (os deprimidos e os "saudáveis") deviam descobrir se suas ações tinham ou não alguma influência sobre uma lâmpada que, de fato, se acendia e se apagava ao acaso. Os não-deprimidos, apesar dos desacertos, concluíram que suas ações eram eficazes. Os deprimidos concluíram (corretamente) que suas ações não tinham eficácia nenhuma e que não havia como fazer a cabeça da maldita lâmpada.
Pois é, MC, aquele que parece doido é algumas vezes o lúcido. O problema é a que estas pessoas ficam se perguntando sem parar se é possível separar claramente fantasia de realidade e se perdem nesta questão. Então o medo surge. Só que diante de nossos pavores, só temos duas saídas: nos escondermos em um canto com úlcera e ansiedade e fugimos, ou fazemos um esforço e enfrentamos o medo. O tipo de pessoa que discutimos lembra sempre que nosso inconsciente não diferencia fantasia de realidade. Mas se ficar pensando em todas as vezes que não conseguiu, ou ainda, que não vai dar certo mesmo, que nem adianta começar, baseando-se nas experiências anteriores negativas, sua mente irá reagir de acordo com esse pensamento, pois o medo nasce da associação que nossa mente estabelece com experiências ameaçadoras que ocorreram, sem discernir que não irão ocorrer mais. Quando alguém diz que não consegue, que vai desistir porque sabe que não irá conseguir, geralmente são pessoas que estão com a auto-estima muito baixa e amando-se muito pouco. Mas este não é o caso daquele chamado deprimido saudável que, ao contrário do que parece se ama sim, simplesmente pensa muito. Este sujeito, se ele tiver uma evidência clara de que não mistura todo o tempo fantasia e realidade, parte para a luta, continua a luta, não importa os resultados, o importante é tentar ser feliz. Tudo isso para dizer que talvez fugir pode ser melhor.
Pois é, MC, aquele que parece doido é algumas vezes o lúcido. O problema é a que estas pessoas ficam se perguntando sem parar se é possível separar claramente fantasia de realidade e se perdem nesta questão. Então o medo surge. Só que diante de nossos pavores, só temos duas saídas: nos escondermos em um canto com úlcera e ansiedade e fugimos, ou fazemos um esforço e enfrentamos o medo. O tipo de pessoa que discutimos lembra sempre que nosso inconsciente não diferencia fantasia de realidade. Mas se ficar pensando em todas as vezes que não conseguiu, ou ainda, que não vai dar certo mesmo, que nem adianta começar, baseando-se nas experiências anteriores negativas, sua mente irá reagir de acordo com esse pensamento, pois o medo nasce da associação que nossa mente estabelece com experiências ameaçadoras que ocorreram, sem discernir que não irão ocorrer mais. Quando alguém diz que não consegue, que vai desistir porque sabe que não irá conseguir, geralmente são pessoas que estão com a auto-estima muito baixa e amando-se muito pouco. Mas este não é o caso daquele chamado deprimido saudável que, ao contrário do que parece se ama sim, simplesmente pensa muito. Este sujeito, se ele tiver uma evidência clara de que não mistura todo o tempo fantasia e realidade, parte para a luta, continua a luta, não importa os resultados, o importante é tentar ser feliz. Tudo isso para dizer que talvez fugir pode ser melhor.

