segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Acabou fevereiro

Acabou fevereiro, as férias. Volto para minha vida acadêmica que também adoro. Nem esperava nada deste mês. No entanto, foi divertidíssimo. Viva a libertade! Viva a vida nova! Viva as saídas, a bebida, as amizades, os beijos, as gargalhadas, as lágrigas, os romances cada um no seu estilo! Vivi. Foi bom, adeus.

sábado, fevereiro 26, 2005

For Daniel

Dear Daniel. It is time to say tchau and same words to remember Brazil. As I said, to dance and to make love are similar. And so they are. You cannot make love or to dance with anybody. It is necessary to have the same rhythm of the body. Obviously, it does not mean either that the person to dance and the one to make love must be the same. They are different rhythms. Moreover, all of these thoughts do not say anything about love. There are great things that mean nothing and little things that mean life. The last is love and it makes life makes sense. And nothing can cover it. Remember all of this and attempt to learn to dance. You will like it and life will be more fun. Have a great trip back and come back in August to live the happy Brazilian way of life! I am very happy that I met you. Moral of it? “Fuck the universe!”.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Paráfrase

Tão próximo de mim quanto uma imagem no espelho, eu podia o ver, mas não compreender. Recebia ao mesmo tempo a minha recompensa e meu castigo. Minha dose de café e nicotina, de cocaína. É bem verdade que essa estranheza não me adianta de nada, já que nem sequer sou capaz de entender o que a faz ser assim. Quantos equívocos fornecem a razão de minha própria vida e as desculpas das quais vivo? Quem afinal está sendo de fato tapeado com o distúrbio causado em meus leitores por minhas observações – elaboradas somente o suficiente para serem inteligíveis, e no entanto interrompidas no meio do caminho? Leitor que acredita em nós (ou mesmo aquele que me crê em pleno delírio, ou ainda nós mesmos), não posso estar satisfeita antes de conseguir dissolver esse resíduo que fornece um pretexto para minha própria vaidade. Para além da vaidade que me seduziu, responda-me enfim e me desvende a sua língua. Onde ela reside, por trás dessas confusas aparências que são tudo e nada? Isolo cenas, recorto-as. Será também uma mentira, esse tudo que me transporta e do qual cada parte, tomada isoladamente, se esquiva? Se devo admití-lo como real, quero pelo menos atingí-lo por completo. E, no entanto, hoje sou obrigada a reconhecer: sem que nada em meus sentimentos mudara, esse amor desprende-se de mim como onda que recua na areia. Meus pensamentos permanecem os mesmos, é a água que me abandona. Alegrias procuradas tempo demais e com intensidade demais me abandonam. Nesses itinerários tantas vezes percorridos, até a surpresa tornou-se familiar. Os caprichos ridículos da consciência em conflito já abandonados por completo podem também ser lidos sem ambigüidade na areia descoberta pela onda. Recordar é uma grande volúpia para o homem, mas não na medida em que a memória se mostra literal, porque poucos aceitariam viver novamente as labutas e os sofrimentos que, no entanto, gostam de rememorar. A recordação é a própria vida, mas com outra qualidade. Faltam ainda pegadas na areia. Eu te amo sem qualquer controle da razão.

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Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Florbela Espanca

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Foda-se

NOSSO VOCABULÁRIO

MILLÔR FERNANDES


Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não!" o substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência.
Solte logo um definitivo "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por ílaba...Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo.

Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cu!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder
de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? "Fodeu de vez!".

Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo?

Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se.

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“Quanto mais inteligente uma pessoa, mais sólidas as burrices.”

Tem mais uma coisa

MC, tem mais. Chega de moralismo. Me aguarde para ver o que apronto! Será?
O poema que você postou é de Adélia Prado. Adoro a Adélia. Aqui vai mais um, afinal este blog é de poesia:

Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.

PS

MC, que história é essa de blog feminista? Justo nós? Só no nosso desejo! Olhe para gente correndo atrás de filhos o tempo todo, parando de trabalhar por causa de escola, lição de casa, etc? Não temos tempo nem para fazer um statement em uma camiseta... A única coisa neste sentido que eu consegui fazer foi acabar com um casamento que acabava com minha confiança para ficar sozinha, cuidando dos filhos SOZINHA. Bem pouco, heim! Feministas arrumadinhas, sem sovaco cabeludo, cuidando de filhos, sem nenhum statement na camiseta? Não dá. Vamos ser realistas. E ainda mais pensando nas horinhas que sobram em lingüística? HA HA HA! Este blog tinha mesmo que morrer. Bom, como consolo, ficam algumas palavras de Chomsky sobre liberdade. Estas eu assumo:

"The value sets I would suggest are in opposition to the principle of leadership. Hierarchy and domination are necessary under conditions of social deprivation and economic deficit..."
"I think that anyone´s political ideas or their ideas of social organization must be rooted ultimately in some concept of human nature and human needs. Now my own feelings is that the fundamental human capacity is the capacity and the need for creative self-expression, for free control of all aspects of one´s life and thought...Now having this view of human nature and human needs, one tries to think about the modes of social organization that would permit the freest and fullest development of the individual, of each individual´s potentialities in whatever direction they might take, that would permit him to be fully human in the sense of having the greatest possible scope for his freedom and initiative."

Um beijo, minha amiga. Mais um cigarro amanhã na reunião com os alemães? Não suporto mais estes corpora. Quero férias.

domingo, fevereiro 13, 2005

It kept it all

Entra uma ave em meu coração durante um delírio. A ave vive com corpo e alma, sem querer saber como veio. Sou ave, errante. Sou nuvem, vago pelo mundo. Pronto! Que seja! Love is a pain in the ass.

Ceará

Conheci o Ceará, do litoral ao sertão. Uma viagem que chegou ao meu coração. De viver com o povo. Do meu primeiro porre (odeio rum, não dava mais nem para beijar de tão enjoada, será que cenas ridículas como esta ocorrem com outras pessoas?). Da volta aos meus 20 anos (ou menos?). De dormir com a Jaque no carro no quintal. Até a dor dos meus 30s refletida na escadaria de Juazeiro. Subimos de joelhos eu, Jaque e seu pai. À Julia, que provavelmente jamais vai andar (deixando minha vida sempre um pouquinho morta com suas células lesadas), mas que sempre consegue trazer uma explosão de vida. Arranhamos os joelhos até quase sair sangue. Não pela fé, que nem sequer tínhamos, mas por amor, amizade e solidariedade. A dor dos joelhos alivia a dor do coração? Não, mas a amizade com certeza. E um pedaço de rapadura batida com cocada moreninha.