Olhem só, não era coisa da minha cabeça a minha suspeita. Obrigada, Sel, por responder. O post é cópia de email da Sel, texto publicado na Carta Capital.
Há cinco anos, o Brasil tenta tirar uma ONG dos EUA de
áreas indígenas
Por Felipe Milanez
Numa área pouco povoada entre os rios Purus e Juruá, dois grandes
afluentes da margem direita do Amazonas, próximo à cidade de Lábrea,
a aldeia suruwahá vive um drama que ameaça levá-la à extinção.
Localizados em meio a um mosaico de 24 terra indígenas, próximo ao
gasoduto Urucu-Porto Velho, os suruwahá têm convivido com uma onda de
suicídios atribuída ao contato com os brancos. Diante da ausência do
Estado, eles dependem exclusivamente de uma missão evangélica norte-
americana, a Jocum (Jovens com uma Missão), que há anos mantém
contato com os índios, levando a "palavra do Senhor".
Há mais de cinco anos o Ministério Público e a Funai tentam retirar
os missionários, a quem atribuem uma série de ilegalidades. Documento
interno da Funai, ao qual Carta Capital teve acesso, intitulado
Missão: o veneno lento e letal dos suruwahá, reúne graves denúncias
contra a Jocum. Assinado pelo indigenista Antenor Vaz, da Coordenação
Geral de Índios Isolados da Funai, acusa a missão de proselitismo
religioso, evangelização e desestruturaçã o da comunidade suruwahá,
hoje às voltas com uma onda de suicídios.
Entre as acusações, a de escravizar indígenas, extração ilegal de
sangue dos índios, contrabando de sementes, construção de pistas de
pouso clandestinas, uso de radioamador pirata, venda ilegal de
madeira, remoção de indígenas de seu território sem autorização da
Funai, adoção suspeita de crianças, realização de expedições veladas
em busca de aborígenes isolados e o uso indevido de imagens dos
suruwahá. Também é acusada de incitar os índios contra os
representantes do Estado brasileiro, no caso a Funai e Funasa. Os
funcionários das duas fundações têm sido ameaçados de morte.
"É uma atuação muito complicada. Eles fazem o que querem sem prestar
contas a ninguém", afirma o presidente em exercício da Funai, Aloysio
Guapindaia. Os missionários são os únicos a falar a língua dos
suruwahá. E resistem a sair com o argumento de que os índios desejam
sua companhia.
A Jocum, junto com outras entidades evangélicas, como a Missão Novas
Tribos do Brasil (MNTB), e a Sociedade Internacional de Lingüística
atuam intensamente na maioria dessas aldeias. Contam com a logística
necessária para fazer a mediação cultural com os índios e controlar o
fluxo de pessoas. E também com o respeito dos nativos, complicando o
trabalho dos funcionários da Funai, que estão longe de deter o
controle do território dos suruwahá. Na verdade, até bem pouco tempo
atrás, a Funai contava com apenas um funcionário para atender toda a
região. Recentemente, contratou-se outro.
Em maio de 2003, o então procurador da República no Amazonas Sérgio
Lauria Ferreira determinou a expulsão dos missionários da Jocum e do
Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ligado à Igreja Católica.
Até hoje a Jocum se nega a sair e impõe condições. A ONG evangélica
também está na mira da Secretaria Nacional de Justiça, do Ministério
da Justiça. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) considera que
a Jocum "ameaça identidade étnica e interfere na 'cosmodivisão' dos
índios, por introduzir rituais religiosos e entidades místicas
estranhas à cultura suruwahá.
Presidente da Jocum, Bráulia Ribeiro nega as acusações, ao justificar
por que se recusa a sair da terra indígena. "Somos parte da família
dos índios. Nosso papel é promover o bem-estar. Não pregamos
religião, mas os índios têm o direito de ouvir e escolher se querem
se evangelizar. A pregação é pelo relacionamento, no convívio",
afirma a missionária. A Jocum consegue manter uma equipe na aldeia,
transportada em hidroaviões e aeronaves. Estas utilizam pistas de
pouso construídas em associação com outras missões, em aldeias
próximas às do suruwahá, como a dos deni.
Criada pelo pastor fundamentalista norte-americano Loren Cunningham,
em 1960, a Jocum chegou ao Brasil em 1975. Entrou em contato com os
suruwahá em 1984, com a justificativa de proporcionar assistência
médica aos indígenas. A avaliação da Funai é que a assistência é
ineficiente e funciona apenas como álibi para a evangelização.
Desde o primeiro contato da Funai com os suruwahá, em 2000, ficou
claro que alguma coisa estava errada na aldeia, conta Izac
Albuquerque, o primeiro funcionário a alcançar a área. "Assim que
cheguei, um grupo me cercou. Apontavam flechas envenenadas, me
ameaçavam. Eles falavam que não gostavam da Funai, que a Funai matava
e fazia tudo de ruim". Mais tarde se deu conta de que a recepção
hostil tinha sido inflada pelos missionários.
Para o Ministério Público Federal, as duas missões, evangélica e
católica, são irregulares e devem retirar-se. Rivais, as duas
entidades trocam acusações. O Cimi deu início às denúncias contra a
atuação da Jocum, há dez anos, acusando-a de espalhar a gripe na
região. Para se aproximar dos indígenas, a Jocum contara com um casal
de missionários Edson e Márcia Suzuki, que aprenderam a língua. Em
seguida, começaram a traduzir para o suruwahá conceitos cristãos e a
intensificar o processo de evangelização. Foi nesse ponto que o Cimi
denunciou a ação da Jocum.
O que as missões não esperavam enfrentar é um drama ainda maior, no
caso dos suruwahá em relação a outros povos, ainda não compreendido:
o altíssimo índice de suicídio. Os suruwahá morrem voluntariamente. A
taxa de suicídio de 8% ao ano é impressionante. No contrafluxo da
tendência nacional, a população suruwahá está caindo nos últimos
anos. Hoje são 137, em 2004 eram 145.
Para o antropólogo João Dal Poz, que pesquisou o tema do suicídio
entre os suruwahá, esse distúrbio tem origem em uma dinâmica de
transformação sociológica, do modo de vida desse povo após a chegada
dos brancos na região. Eles cultivavam uma relação belicosa e
complexa com seus vizinhos, nutrida por magias e feitiçarias. "Sempre
houve suicídio, mas nunca numa taxa tão alta. Parece-me que são
reflexos da guerra religiosa entre católicos e evangélicos,
instaurada inclusive entre as lideranças locais. Eles tentam se matar
e muitas vezes se matam por qualquer bobagem", afirma Dal Poz.
A análise da pirâmide demográfica atualmente é assustadora: não há
adultos homens entre 45 e 60 anos. Para o Cimi, a Jocum e o descaso
do governo federal são os maiores responsáveis. "É provável que esse
aumento dos suicídios tenha a ver com as constantes saídas dos índios
para as cidades, promovidas por alguns missionários evangélicos com o
apoio da Funai e da Funasa", diz Josefa Alves, do Cimi. Ela defende o
contato dos suruwahá com outro indígenas, o que os ajudaria a superar
o etnotrauma, como define, decorrente do contato com seringueiros
desde os anos 1980.
Para a Jocum, a saída passa necessariamente pela "salvação
religiosa". Os índios estão dominados por demônios e
precisam "encontrar Jesus", como diz Bráulia Ribeiro. Por esse
motivo, missionários da Jocum começaram a fazer rituais de exorcismo
dentro da aldeia. O Cimi sustenta que a missão evangélica trouxe da
Nova Zelândia dez xamãs da etnia maori, cujos rituais desagradaram
aos pajés locais, que se sentiram desprestigiados.
Bráulia revida para afirmar que quando os índios são retirados das
aldeias sempre há o consentimento da Funai e da Funasa. Os dois órgão
negam. Mas a questão se tornou ainda mais emblemática em 2005, quando
os missionários levaram para tratamento em São Paulo as pequenas
Iganani e Sumawani, que, segundo eles, conforme costumes locais,
seriam assassinadas por apresentarem deficiências físicas. Levaram
também os pais da última, Kusiama e Naru. Diante da repercussão,
dirigentes da Jocum tiveram de depor em audiência pública na Câmara
dos Deputados, em Brasília, para explicar a retirada sem autorização
das crianças da aldeia. Conseguiram angaria a simpatia de alguns
parlamentares.
Em Rondônia, onde a Jocum também é bastante ativa e mantém sua sede,
a Associação do Povo Uru-eu-uau-uau, da região do rio Jupaú,
denunciou que os missionários estariam comercializando sementes de
mogno para o exterior ilegalmente. Para a Jocum, tratava-se de uma
operação ligada a um convênio que seria firmado com a Embrapa
(Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) . A Embrapa não confirma
a informação.
" Nossa expectativa é que se avaliem as práticas do Cimi e a da Jocum
e se identifiquem quem faz agressões culturais e comete ilegalidades.
Não se trata de duas missão religiosas disputando espaço", afirma
Francisco Loebens, coordenador do Cimi Norte, com atuação na região
amazônica.
Alguns anos atrás, três jovens missionários da Jocum - Júlio Nova,
Nilson Carvalheiro e Nivaldo Carvalho - foram apanhados no meio de
uma expedição ilegal. Tentavam estabelecer contato com o povo isolado
hi-merimã, próximo aos suruwahá, contrariando a política da Funai de
evitar o contato com os povos isolados.
A dinâmica da evangelização surpreende, ao se referir a temas
inusitados. Há relato de um jovem suruwahá que ora para Jesus pedindo
boas caçadas. "Um rapaz novo fez isso e matou, num só dia, as duas
primeiras antas de sua vida."
No documento da Funai, há relatos variados de interferência cultural.
Vizinhos dos suruwahá e também falantes da língua arawa, os banawa
tinham o costume de abandonar o lugar onde moravam sempre que uma
pessoa morresse. Após a morte, enterravam todos os haveres do morto,
para que seu espírito não amedrontasse os vivos. Só a morte de uma
velha banawa acabaria com a maldição. Certa vez, uma missionária da
Jocum, conhecida por Fátima, depois do enterro, convenceu os
indígenas de que se todos ficassem rezando a Deus o espírito da
falecida não voltaria. Segundo o relato da Funai, os índios ficarm
rezando a noite toda. Para a missionária, foi a oportunidade de fazê-
los sentir "o poder de Deus e a sua superioridade" .
Diante da diversidade de povos indígenas próximos e da presença
rarefeita da Funai, o antropólogo Dal Poz sugere analisar em termos
genéricos a presença das missões na região. "A atuação dessas missões
vincula-se aos objetivos ideológicos dos fundamentalismo evangélico
norte-americano, em seus esforços de evangelizar e converter os
índios." Débora Duprat, subprocuradora- geral da República, concorda
que a gravidade da questão se deve à ausência do Estado na
Amazônia. "Várias comunidades são assediadas pelas missões. E neste
caso dos suruwahá os missionários têm efetivamente o domínio,
inclusive espiritual do grupo", afirma. A procuradora está preocupada
com a repercussão que o filme lançado recentemente pela Jocum poderá
causar. Hakani: Incinerado Vivo - A história de um sobrevivente
chocou antropólogos e indigenistas no Brasil pelo forma como os
índios são retratados.
Dirigido por David Cunningham - filho do fundador da Jocum - , o
filme conta a história da menina Hakani, sobrevivente a uma tentativa
de infanticídio. Seus pais e alguns parentes teriam se suicidado por
causa disso. Hakani foi entregue aos missionários e com eles vive até
hoje. Trata-se de um libelo contra o que os antropólogos e a própria
Funai vêem como um elemento da cultura suruwahá.
Para a procuradora, cabe uma ação de danos morais pela forma como os
povos indígenas são tratados. "Denigre a imagem dos índios, acirra os
preconceitos e usa-os para uma batalha da Jocum, que é a aprovação de
uma lei despropositada que criminaliza a prática de infanticídio. "
Em seu blog, o ex-presidente da Funai Mércio Gomes considerou o
filme "criminoso". E pediu que se fizesse uma denúncia para
a "Polícia Federal, o Ministério da Justiça, a Secretaria de Direitos
Humanos, a Funai, o Supremo Tribunal Federal e todas as instâncias
judiciais, jurídicas e éticas do Brasil". A Funai diz que investiga o
caso e estuda medidas judiciais contra a Jocum.
A expulsão da missão evangélica da terra indígena é dada como certa,
mas já se passaram cinco anos desde que o Ministério Público Federal
se pronunciou nesse sentido. O MP alega que o grupo indígena vive uma
situação de vulnerabilidade, pelo contato recente. " A Jocum manipula
os índios, coloca-se como amiga. Mas é um discurso para fora, na
verdade os missionários desqualificam os índios, tratam-nos como
selvagens, são preconceituosos" , afirma Rodrigo Lines, que cobra da
Funai a retirada dos missionários e defende a adoção de um programa
de proteção.
O temor geral é que ocorram novos suicídios caso a missão saia. "Se
for preciso, vamos buscar uma medida mais enérgica entrar com uma
ação, cobrando multa e medidas coercitivas. Isso em última instância,
para não azedar e dificultar ainda mais a relação de confiança que a
Funai e a Funasa devem estabelecer com os indígenas", diz Lines.
Com a saída da Jocum, a Funai retomaria o controle da área para
aplicar o modelo de atuação implantado junto ao povo zoe, visto como
exemplar pela fundação. Os zoe viveram momentos parecidos, mas sob o
domínio de outra missão, a MNTB, já expulsa. Agora, a Funai percebe
uma situação mais tranqüila, com recuperação demográfica e bem-estar
social, sob a supervisão do indigenista João Lobato, nos mesmos
moldes das operações realizadas pelos irmãos Villas-Boas.
De acordo com o presidente em exercício da Funai, Aloysio Guapindaia,
enquanto a Funai for fraca, não haverá muito a ser feito, e o Brasil
terá de conviver com esse tipo de ameaça à soberania política. " A
sociedade tem de ter como objetivo a reestruturação do órgão
indigenista" , afirma.
Hoje, caso a Petrobrás pretenda discutir os impactos do gasoduto
Urucu-Porto Velho com os índios suruwahá, terá como interlocutora uma
Funai "surda", incapaz de consultar os índios por sua conta, ou se
submeter à tradução dos missionários evangélicos de uma organização
norte-americana. Em terras da União, em pleno território amazônico,
cuja soberania nos últimos tempos tem inflamado tantos ânimos.
Fonte: Carta Capital - edição 505 - 18 de julho de 2008