segunda-feira, junho 23, 2008
O filme é uma performance do João Ricardo do Lume. Foi realizada no dia 09 de junho no Pátio do Ciclo Básico, UNICAMP. Segundo o João, a performance "lança seus peles plásticas em direção aos devires corporais que povoam "A Tempestade" de Willian Shakespeare, o imaginário erótico espiritual das imagens de São Sebastião e o horror dos corpos mumificados.". Para mim, parece um parto. Confiram.
sexta-feira, junho 20, 2008
Wandafuru Raifu

Já falei do filme Wandafuru Raifu aqui. Trata-se do filme japonês que mencionei anteriormente. Gostaria de falar novamente dele, pois antes falei de ouvir falar sobre o filme apenas (como contado para mim), e agora após assisti-lo.
Neste filme, o paraíso é uma única lembrança da vida.
O cineata fez esse filme pensando no pai que morreu sem memória. Neste lugar, cabe pensar no papel da memória na construção de uma identidade. Não seria simples escolher uma única memória como marca de uma vida. Fazer este recorte é tarefa dura, pois, como disse Bergson (também já citado aqui):
"...não há estado de alma, por mais simples que seja, que não mude a cada instante, pois não há consciência sem memória, não há continuação de um estado sem adição, ao sentimento presente, da lembrança de momentos passados. Nisto consiste a duração. A duração interior é a vida contínua de uma memória que prolonga o passado no presente, seja porque o presente encerra distintamente a imagem incessantemente crescente do passado, seja, mais ainda porque testemunha a carga sempre mais pesada que arrastamos atrás de nós, à medida que envelhecemos. Sem esta sobrevivência do passado no presente, não haveria duração, mas somente instantaneidade"
No filme, a memória por cada pessoa é reproduzida em uma peça de teatro filmada. E também a tomada desta única memória não é tão fácil de se conseguida. E o filme mostra isso: a confecção de uma peça e sua direção para se conseguir a meta planejada. E isso faz lembrar o que uma amigo diretor disse:
“Es allí en donde la presencia/memoria toma para mí un sentido más atractivo; cuando el cuerpo del actor es una caja de resonancia, por donde suenan – a través de sus memorias físicas – un sinnúmero de otras frecuencias, de otras memorias, de otras presencias, el actor/bailarín es como un piano en donde el teclado es su columna vertebral en la cual cada vértebra conserva la vibración de sus memorias.”
E quando a memória que se marca uma identidade não ocorreu de fato? Por exemplo, uma pessoa me disse um dia que a principal coisa da vida, que constrói sua identidade, é um tempo do qual não se lembra: de quando viveu com os pais, ainda muito pequeno. Tudo o que sabe, é reconstruído pelos relatos de outras pessoas, com alguns pequenos flashes que não sabe se viveu ou imaginou.
Acho que tudo bem ainda, se retomarmos Berson. A sua ideia básica é que a realidade é a duração: um fato existe se existe na memória. E o local em que se evidencia que a realidade é duração é a consciência, onde se unem experiência e intuição.
Assim, a tarefa do filme é a escolha da nossa duração interior. “A duração interior é a vida contínua de uma memória que prolonga o passado no presente.”
O filme é, de fato, uma bela idéia de eternidade. E uma bela idéia sobre a arte, que pode ser colocada também através das palavras de Norberto Presta, o meu amigo diretor:
“Pienso al cruce de estas memorias con otras; con las que contienen los objetos, las que producen la literatura, las culturas e historias de los otros, pienso a una contaminación de memoria que se transforme en arte, siendo que el arte es memoria.”
quarta-feira, junho 18, 2008
:)
Aos olhos dele
Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.
Fiquei então sem fé; e a toda gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!
Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:
Eu creio, sim eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que me encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!
Florbela Espanca
Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.
Fiquei então sem fé; e a toda gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!
Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:
Eu creio, sim eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que me encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!
Florbela Espanca
Como mencionado por uma leitora deste blog (e compartilho desta opinião), a ciência é capaz de explicar muita coisa, até o sentimento de fé, a necessidade de se agrupar para adorar divindades. A ciência pode explicar muita coisa do mundo, e a religião obviamente não vai escapar disso. Tem, obviamente, muita coisa que a ciência não explica. Mas estas coisas não estão me interessando no momento. Não tenho perguntas sobre isso. Há de se ter perguntas para achar respostas. Eu não tenho. Se tiver vontade, vou formulá-las e procurar quem possa me responder. Assim, deixo aqui meu pronunciamento. Não sou uma pessoa que se converte a nada. Não quero pertencer a nenhum grupo de nada. Muita gente já tentou, inútil. É perder tempo. Só tem uma coisa no mundo que me irrita e me deixa brava de verdade: missionários. E repito que é inútil, sou mais dura que pedra! Estou satisfeita com as perguntas que tenho e não preciso de mais. Adoro a diversidade e, portanto, pensamentos distintos. Novamente, não formo grupos de nenhum tipo de pensamento uniforme e não quero pertencer a nenhum.
terça-feira, junho 17, 2008
Morrer, verbo transitivo (capítulo XI)
Alan Moonsfield, sentado em sua confortável poltrona de couro preto, toma seu costumeiro vinho tinto olhando um pouco distraído para a TV. Fica perplexo ao ouvir sobre a internação de Robert. Preocupa-se. Havia faltado da reunião da confraria. Será que essa notícia teria relação com algo que aconteceu na reunião? Teria sido de fato acidente? Ou as mortes deveriam continuar? Mas, se sim, por que está ainda vivo? Sim, deve ter sido um acidente... Melhor pensar em outra coisa.
Admira a lua através da imensa porta de vidro que dá para a varanda. Olha a novela Os beijos que sonhei para a minha boca no vale a pena ver de novo da SFIX. Vê Tânia Paloma tentando suicídio de cima do penhasco. Alan inveja a coragem de Paloma pronta para se jogar no mar. As ondas batem verdes e fortes no final do penhasco. O cenário é magnífico. Paloma diz: "Partir, deixar a ilha tão pequena, que as ondas do mar rodeiam. Fugir, buscar terras mais longe onde a alma errante caminhe. Partir." Paloma se prepara para saltar. E o capítulo termina aí.
Um frio na espinha se instala. Morte agentiva. Se pelo menos pudesse escolher a minha morte. Se eu não for propriamente adjetivado, não terei mais alternativas. Não quero de sangue imolado para Shiva.
Olha novamente a lua crescente e pensa em Pashupati, uma das primeiras representações de Shiva. O Senhor dos Animais com sua três faces, olhando o passar do tempo. Há quatro animais ao seu redor, o tigre, o elefante, o rinoceronte e o búfalo. Esses animais podem representar nossas emoções e instintos mais básicos como o orgulho, a força bruta, o ódio e a sexualidade desenfreada. Pashupati, então, é aquele que domou suas feras interiores, suas emoções e convive sabiamente com elas. Apenas aqueles que praticam os ritos dos irmãos dos animais podem ultrapassar sua animalidade.
Sua ex-esposa desrespeitou Shiva e já não pode mais controlar seus instintos. Poderia, sim, ela ser imolada, mas a confraria não deverá encontrá-la, afinal mudou de nome, de identidade. Ela é a personificação dos instintos. Sexualidade desenfreada, principalmente...
Sentiu saudades dela. Resolveu sair para vê-la dançar como Shiva.
A porta, próxima à Praça da República, já anunciava o show, com uma grande e luminosa chamada para a Rainha Lesbo. Alan entrou todo em preto, sobretudo, chapéu o óculos. Não podia ser reconhecido naquele local.
Lá estava ela, em posição de árvore invertida dançante, ao lado do costumeiro mastro. Aprendeu com Jena. Linda como sempre, com seus lábios grossos e seios fartos. Ao seu lado, quatro mulheres animalescas. Uma verdadeira visão de Pashupati ao som de Slave to Love. Olhando, como quem admira a lua, ficou por muitos minutos, apenas repetindo a lírica da música de maneira automática.
Alan permaneceu bem ao fundo, ela não o poderia ver. Estava no canto direito. Olhou em volta e no canto oposto viu o adjetivador. Ele também está aqui? Seria coincidência? Ou sabe quem é minha esposa? Aceitará ele minha proposta? Ou também coloborará para a minha total desmoralização? Ficou atordoado e resolveu sair antes de ser reconhecido.
Passou a andar pela Rua São João e a letra de Slave to Love não saia de sua cabeça:
The sky is burning
A sea of flame
Though your world is changing
I will be the same
The storm is breaking
Passou a cantarolar procurando pela lua crescente, e uma vontade imensa de morte agentiva encheu-lhe a alma. Sílabas menores...
Admira a lua através da imensa porta de vidro que dá para a varanda. Olha a novela Os beijos que sonhei para a minha boca no vale a pena ver de novo da SFIX. Vê Tânia Paloma tentando suicídio de cima do penhasco. Alan inveja a coragem de Paloma pronta para se jogar no mar. As ondas batem verdes e fortes no final do penhasco. O cenário é magnífico. Paloma diz: "Partir, deixar a ilha tão pequena, que as ondas do mar rodeiam. Fugir, buscar terras mais longe onde a alma errante caminhe. Partir." Paloma se prepara para saltar. E o capítulo termina aí.
Um frio na espinha se instala. Morte agentiva. Se pelo menos pudesse escolher a minha morte. Se eu não for propriamente adjetivado, não terei mais alternativas. Não quero de sangue imolado para Shiva.
Olha novamente a lua crescente e pensa em Pashupati, uma das primeiras representações de Shiva. O Senhor dos Animais com sua três faces, olhando o passar do tempo. Há quatro animais ao seu redor, o tigre, o elefante, o rinoceronte e o búfalo. Esses animais podem representar nossas emoções e instintos mais básicos como o orgulho, a força bruta, o ódio e a sexualidade desenfreada. Pashupati, então, é aquele que domou suas feras interiores, suas emoções e convive sabiamente com elas. Apenas aqueles que praticam os ritos dos irmãos dos animais podem ultrapassar sua animalidade.
Sua ex-esposa desrespeitou Shiva e já não pode mais controlar seus instintos. Poderia, sim, ela ser imolada, mas a confraria não deverá encontrá-la, afinal mudou de nome, de identidade. Ela é a personificação dos instintos. Sexualidade desenfreada, principalmente...
Sentiu saudades dela. Resolveu sair para vê-la dançar como Shiva.
A porta, próxima à Praça da República, já anunciava o show, com uma grande e luminosa chamada para a Rainha Lesbo. Alan entrou todo em preto, sobretudo, chapéu o óculos. Não podia ser reconhecido naquele local.
Lá estava ela, em posição de árvore invertida dançante, ao lado do costumeiro mastro. Aprendeu com Jena. Linda como sempre, com seus lábios grossos e seios fartos. Ao seu lado, quatro mulheres animalescas. Uma verdadeira visão de Pashupati ao som de Slave to Love. Olhando, como quem admira a lua, ficou por muitos minutos, apenas repetindo a lírica da música de maneira automática.
Alan permaneceu bem ao fundo, ela não o poderia ver. Estava no canto direito. Olhou em volta e no canto oposto viu o adjetivador. Ele também está aqui? Seria coincidência? Ou sabe quem é minha esposa? Aceitará ele minha proposta? Ou também coloborará para a minha total desmoralização? Ficou atordoado e resolveu sair antes de ser reconhecido.
Passou a andar pela Rua São João e a letra de Slave to Love não saia de sua cabeça:
The sky is burning
A sea of flame
Though your world is changing
I will be the same
The storm is breaking
Passou a cantarolar procurando pela lua crescente, e uma vontade imensa de morte agentiva encheu-lhe a alma. Sílabas menores...
quarta-feira, junho 11, 2008
"...não há estado de alma, por mais simples que seja, que não mude a cada instante, pois não há consciência sem memória, não há continuação de um estado sem adição, ao sentimento presente, da lembrança de momentos passados. Nisto consiste a duração. A duração interior é a vida contínua de uma memória que prolonga o passado no presente, seja porque o presente encerra distintamente a imagem incessantemente crescente do passado, seja, mais ainda porque testemunha a carga sempre mais pesada que arrastamos atrás de nós, à medida que envelhecemos. Sem esta sobrevivência do passado no presente, não haveria duração, mas somente instantaneidade"
H. Bergson
H. Bergson
segunda-feira, junho 09, 2008
The therapeutic value of blogging becomes a focus of study
"...blogging might trigger dopamine release, similar to stimulants like music, running and looking at art."
Scientific American
Veja meandivas.blogspot.com para mais informações
Scientific American
Veja meandivas.blogspot.com para mais informações
domingo, junho 08, 2008
Marcadores: Tudo bem de novo: Festa junina ECC
quarta-feira, junho 04, 2008
Depois da aula, eu estava conversando com a Angela sobre um filme japonês que ela viu. Vou contar de segunda mão. Assim, pode não ser exatamente assim, mas é como lembro. Nesse filme, as pessoas, ao morrerem, iam para um lugar X onde tinham que escolher uma única cena da vida que ficariam com ela em memória eterna. De resto, tudo de mal e de bom seria esquecido. Acontece que sonhei que estava naquele lugar. Tinha que escolher a minha cena. Difícil. No meu sonho, passaram várias cenas importantes. A minha primeira apresentação em mega conferência no exterior, com as palavras importantes de Ken Hale sobre meu trabalho; o nascimento de minha primeira filha; uma noite dormindo ao lado de um homem amado; e assim vai. Não escolhi nada disso. Escolhi uma conversa aparentemente banal de amigos. Acordei. Cinco e meia. E fiquei pensando na escolha de meu sonho. Revisando cada candidato para memória eterna que perdeu, percebi, de fato, um problema que não gostaria de ficar com ele para sempre. Aquela simples conversa foi um momento, de fato, divertido e com implicações para um tempo importante de minha vida. Sem dúvidas, palavras que seriam boas levar para sempre, bem como o sentimento de amizade. Faria a mesma escolha em consciência. Mas ainda assim só voltei a dormir bem depois do dia ficar claro, ainda perturbada. Não sei bem o porquê. Talvez porque estamos diante da pergunta de se há fato eterno, ou melhor, tão perfeito a ponto de ser eternidade. Parece melhor, talvez, não levar nada. E incomoda.

