segunda-feira, janeiro 31, 2005

Canção dos olhos (Chico)

Meu Deus, o que será que tem
Nesses olhos teus
O que será que tem
Pra me seduzir
Pra me escravizar
Não sei
E não saberei também
Como resistir
A seu modo amar

Eu só estou sabendo
Que para te amar
Eu viverei sofrendo
Mas já não resiste
O coração
Quero viver triste
E então

E quando eu tiver os meus olhos chorando
Saberei então seu olhar ilusão

Eva chegou

Chegou a minha aluna alemã. Entrem em contato com ela no Orkut ou em casa. Ela quer conhecer os brasileiros e Campinas.

domingo, janeiro 30, 2005

O funcionário da geladeira

Saímos ontem eu, Telma, Layane e Juanito. Foi ótimo. Vou me lembrar sempre do funcionário da geladeira, não pela sua beleza que é unânime e indiscutível (né Juanito?), mas pela graça do Juanito. Você é dez! Valeram a noite e as risadas. Vamos dançar na próxima, viu?

quarta-feira, janeiro 26, 2005

se ao menos chovesse menos

As crianças vão dormir com o pai terças e quintas, e às vezes nos finais de semana. É bom ficar em casa sentindo uma solidão que desconhecia até pouco tempo. Mas sinto a falta de uma voz que anda tão calada. Queria ouvir o que sente. Só ouvir. Dá vontade de ir lá e falar: fala, porra! Você está bem? Só quero saber. Mas jamais saberei. Vou é ficar aqui vendo as noites de lua ou ouvindo a chuva torrencial. É um sentimento insuportável.

Sonhei que minha casa foi invadida por um ladrão. Eu fugi, mas havia outro só olhando do lado de fora. Ele viu que eu fugia e deixou. Pensei em chamar a polícia, mas no caminho resolvi deixar tudo. Fique com a casa, escolha o que achar de valor. Pegue, pode levar, é seu. Eu segui sozinha vagando até que caí numa alcova escura e úmida. As paredes eram vermelhas, mas a tinta estava descascando e dava para ver tinta branca embaixo das cascas de tinta vermelha. Brotava gotas de água das paredes úmidas, que misturadas com a tinta vermelha pareciam sangue. As paredes sangravam.

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Cazuza

Poema

Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
De um tempo que eu era ainda criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço, um consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos ou anos atrás

terça-feira, janeiro 25, 2005

madrugada

O silêncio à noite em casa é tão grande e tão delicioso que dá para ouvir as vacas da fazenda Eudóxia, que nem é tão perto assim. É bom não dormir e ficar admirando a água da piscina parada refletindo a lua cheia. Adoro as noites de verão. Ficar aqui totalmente sozinha só ouvindo o silêncio e vendo o reflexo da lua dá uma sensação nova de liberdade que eu não tinha há muito tempo. É bom poder decidir se vou dormir, sair, ou ficar sentindo simplesmente a noite no quintal. Ficar sentindo o nada é delicioso. Não vou dormir até que o sono me derrote. Só olhando a água a partir da rede. Vendo o escuro do mundo.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

eu de hoje

Embora o meu eu pareça claro e decidido, na verdade sou extremamente tímida e confusa. São dois eus. Um dia chego a um equilíbrio. Mas se não cheguei até agora, vai ser difícil. Falando tanto do eu, vou é acabar mudando para Lacan!!!

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"Eu analiso tudo/ e me pergunto:/ quero a verdade ou quero amar?"/ A beira do abismo/ queira ou não queira/ estamos prestes a voar"

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Se eu morrer novo,
sem poder publicar livro nenhum
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.


Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela unica grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez a porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraido.


Fernando Pessoa



ao dia 23 de janeiro

Hoje eu deveria estar voltando da UNEMAT. Estou triste? Não por isso. Outras batalhas virão.

Camões

Adoro literatura portuguese, foi o que sobrou da época em que eu fazia Letras. A comunidade de literatura portuguese está pedindo para apontar o melhor soneto de Camões. O melhor para mim é variável, uma vez que depende do estado de espírito do dia. Coloco aqui o meu eleito de hoje:

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

o eu anarquista

"Ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma. E para ser si mesmo é preciso um trabalho de mouro e uma vigilância incessante na defesa, pois tudo conspira para que sejamos meros números, carneiros nos vários rebanhos. (...) Há no mundo ódio a exceção e ser si mesmo é ser exceção."

Roberto Freire

domingo, janeiro 16, 2005

Adélia

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Filosofia Guaikurú

Dizem que só é possível filosofar em alemão. Bom, para filosofar sobre o amor certamente não pode ser alemão, há de ser Kadiwéu. Em Kadiwéu há um processo gramatical de demoção do objeto, que se chama antipassivização. Há três níveis de antipassivização. Vamos ver o que ocorre com o verbo amar. Ee aqaami Gademaani. Temos um amor transitivo. Ee aqaami jemaataGawa. O objeto do amor fica dativizado e portanto não é mais afetado pelo amor. Mas pelo verbo ser ainda ativo, ainda há uma chance, o sujeito ainda ativo está se reaproximando. No outro estágio, ee aqaami inemaataGawa, o objeto do amor não está mais no campo de visão, é uma amor distante e sujeito passa a ser inativo. Finalmente, há uma intransitivização completa do amor, ee jemaanGa. Apesar de significar amar muito, não há mais objeto do verbo amar.
Há ainda o verbo fumar, ee japikoGo. Se transitivizado de forma inativa, torna-se beijar. Mas se não transitivizado, continuando em sua forma ativa, pode-se fumar os beijos perdidos do amor antipassivizado.
Se alguém conhecer uma língua mais linda, pode me contar. Eu estou feliz com a minha, que tem tanta poesia na sua gramática.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Fernando Pessoa

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Amigo é coisa para se guardar...

O Paulinho Ronzani me telefonou hoje. Não falava com ele desde 1989! Meu querido vizinho de répública na General Ozório. Que legal! Reconheci a voz dele sem dizer quem era. Valeu, Paulinho. Gostei muito. Um beijo.

Florbela ainda

O ano começou como terminou: lendo Florbela. A voz mais feminina que existe! Ótimas falas para a melancolia da chuva desta noite. Este espaço de inspiração poética traz mais Florbela, com suas belas ênclises. O velho problema da colocação de clíticos: pelo menos uma coisa fácil de resolver...

Neurastenia

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Marias!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza...

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza...

Chuva... tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!!...

Tarde de mais...

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Por que chegaste tarde, ó meu Amor?!...

Os versos que te fiz

Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Tem dolencia de veludo caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !