terça-feira, maio 27, 2008

Morrer, verbo transitivo (capítulo VIII)

A porta! Preciso atender. Caralho! Peguei no sono!

Sem secretária, dada a crise que estava passando, deveria abrir a porta ele mesmo. Em uma tentativa desesperada de não demonstrar que estava ensonado, arrumou os cabelos rapidamente e abriu a porta ainda entre o sonho e a realidade.

Alan Moonsfield?!

Devo estar ainda sonhando, esse caso não me sai da cabeça! Porra!

O senhor me conhece?!

Pensou rápido, embora ainda não estando certo se esta visita era realidade ou ainda parte do sonho.

Não. Mas seu rosto é bastante conhecido, senhor Sufixo de Bergens.

Sim, exatamente. Sou Alan Moonsfield, Sufixo. Preciso falar com o senhor, sr. Harper. O senhor pode me receber agora?

Entre, por favor. Aceita um martini?

Não bebo martini, obrigado. O senhor teria vinho tinto?

Com a taça na mão, Moonsfiel foi direto ao assunto, para a perplexidade de Elliot Harper.

Ouvi falar de seus serviços de adjetivação e eu preciso ser propriamente adjetivado.

Fale mais sobre isso.

Como o senhor deve saber, sou estudioso de culturas antigas e, assim, não me arrisco nos métodos modernos. O senhor fez um excelente trabalho de adjetivação na década de noventa. Gosto de seus métodos, considerados por alguns, atualmente, desatualizados, verdade... Mas não acredito nos métodos tecnológicos sempre manipulando seu consenso de maneira tão rápida e enjoativa. Gosto de métodos alternativos, com base na tradições mais clássicas. Mas você tem que ser muito discreto se se interessar pelo caso.

"Você tem que ser muito discreto". Era a mesma frase da Morfema! Aquela maldita que não me sai da cabeça.

Como posso ajudá-lo?

O senhor já sabe que sou Sufixo de Bergens. Um cargo de responsabilidade. Além disso, acabo de publicar aquele que considero a grande obra de minha vida, um livro sobre a gramática do sanscrito com base em meus estudos nas listas lexicais védicas, mais especificamente Dhatupatha e Ganapatha.

Lista? Santo caralho! Seriam estas as listas? Pensou Elliot.

Como o senhor deve saber, como Sufixo, trabalho com religião, língua e literatura, nos modelos da cultura védica, obviamente reinterpretando os estudos sobre a língua com base na lingüística moderna. Com pais imigrantes indianos, meu interesse pelo assunto veio da infância e dediquei, a esse tema, toda a minha vida. Um obra de fôlego, sem dúvida. Mas recentemente meu nome está sendo envolvido em grandes escândalos.

Não sei de nada. O senhor sufixo poderia ser um pouco mais claro?

Desconfio de vingança de minha esposa, agora separados não oficialmente. Devo confessar que soube, através da SFIX TV, que Jena Panigradi foi assassinada. Eu conheci Jena durante minha pós-graduação, dela também. Tivemos um romance. E assim começaram as crises em meu casamento. Minha esposa nunca me perdoou e ela tem me acusado de muitas coisas, espalhando distorções sobre minha vida. Temo que eu seja acusado de ter cometido este assassinato, seria uma grande vingança, e eu perderia meu cargo de Sufixo, coisa que ela muito deseja. E minha obra perderia sua credibilidade. Às vezes penso em me matar pensando nesta possibilidade. Preciso fazer alguma coisa para evitar, e assim pensei no senhor. Sei que o senhor passou por uma fase bastante difícil também, é assunto público; desculpa tocar no assunto. Uma grande crise... Assim, pensei que o senhor poderia me entender e me ajudar a evitar uma crise que seria fatal para mim. Não posso imaginar que toda a minha obra se perca em escândalos.

É sobre a sua esposa a questão? Quem é sua esposa, sr. Monosfield? Perguntou Harper escondendo um ar de ironia.

Prefiro não revelar sua identidade. Depois de nossa separação, ela tem se dedicado a uma vida, digamos, oculta. Esta é uma parte, de fato, delicada, de minha vida. Não é para tratar dela que venho aqui. Trata de me adjetivar propriamente. Como profissional.

A curiosidade de Harper ficou ainda maior. Quem é esta Morfema? E agora? Estou sendo procurado pelos dois para tarefas opostas? Como devo adjetivar propriamente este homem? Deveria aceitar um serviço duplo?

domingo, maio 25, 2008

Estranjis: o filme

Semanas atrás eu contei a história aqui. Mas agora vocês podem ver. Ficou bem lindo e, para mim, cheio de memórias de todos os tipos de sabores.



Afinal, "já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas".

sábado, maio 24, 2008

sexta-feira, maio 23, 2008

Gostaria ainda de manifestar meu apreço ao Sufixo. Vejam bem, eu tenho a impressão de que Morfema não passa de uma raiz lexical subespecificada, aquela sirigaita! O adjetivador é óbvio que é pura derivação. Já o Sufixo... Parece ser flexão pura. Eu acho que ele é TAM! Assim, hierarquicamente mais alto que ele só mesmo a periferia à esquerda.

Morrer, verbo transitivo: explicações e instruções

Morrer, verbo transitivo, como já notado anteriormente é o nome de mais uma estória de tipo folhetim da reunião de blogs GENELLAS FORADORAS LTDA. Dessa vez ganhamos fama e muitas visitas com a entrada do Adilson na produção. Parece que pode virar um curta ou uma peça. É uma estória que brinca com o mundo da lingüística, filofia, arte e midia, com amor, crimes e tudo que deve ter um folhetim. A novidade é que é escrito por 3 pessoas diferentes se alternando. Assim, para acompanhar o folhetim tem que visitar 3 blogs (cutia.wordpress.com, itaypehoe.blogspot.com e negrados.wordpress.com, alternando nesta ordem exata). Obviamente nem todos têm tanta paciência, assim o Negrados fez uma página só para reunir todos os capítulos, facilitando a seqüência. Segundo as fofocas sobre a obra, é a primeira vez que um folhetim é escrito por 3 pessoas sendo que uma não sabe o que a outra vai escrever. Assim, a continuação é sempre uma surpresa, pois nem os escritores sabem o que vai ocorrer. Este fato deu para o GENELLAS uma possibilidade de, talvez, pela primeira vez, criar um roteiro de verdade. O GENELLAS, sempre presente para animar qualquer evento, agradece! Sugestões são benvindas. :)
de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

P. Leminski
_____


Frase da semana: O homem sem chifres é um animal indefeso!

:)

terça-feira, maio 20, 2008

Pintura de Clarice Lispector


Pintei um quadro que uma amiga me aconselhou a não olhar porque me fazia mal. Concordei. Porque neste quadro que se chama medo eu conseguira por pra fora de mim, quem sabe se magicamente, todo o medo-pânico de um ser no mundo. "É uma tela pintada de preto tendo mais ou menos ao centro uma mancha terrivelmente amarelo-escura e no meio uma nervura vermelha, preta e de amarelo-ouro. Parece uma boca sem dentes tentando gritar e não conseguindo. Perto dessa massa amarela, em cima do preto, duas manchas totalmente brancas que são talvez a promessa de um alívio. Faz mal olhar este quadro.

Clarice Lispector

Marcadores: ,

segunda-feira, maio 19, 2008

Sugestão


Já sugeri alhures, mas gostaria, aqui também, de sugerir a seguinte entrevista com Viveiros de Castro (antropólogo) sobre a questão da Raposa Serra do Sol:

www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/05/419259.shtml

Retranca visual: comentários sem palavras


Neste post, uma imagem de horror por mil palavras.

Marcadores:

quinta-feira, maio 15, 2008

Morrer, verbo transitivo (Capítulo 5)

“E as fadas
As fadas também existem
São minhas namoradas
Me beijam pela manhã”

Tocava Cazuza e dava para ouvir na varanda. Na mesinha, um livro recém publicado, Rinoglotofilia, uma proposta de debucalização. Ele estava deitado ao lado do livro olhando o céu e falava consigo mesmo.

Sou peixe de águas salgadas. Nadei por prazer de liberdade até o mar alto. E a correnteza é forte demais. Não sei voltar e não sei aonde ir. A água me joga para onde quiser e eu tenho medo de me machucar. Melhor seria mesmo se me machucasse. Para encontrar finalmente o nada que procuro. Como seria? Afundaria até o frio infinito escuro, ou seria jogado de volta para a areia da praia? Queria ir para a areia da praia. No sol, em areia fervendo, com a carne ardendo queimada sendo comida por larvas comigo ainda vivo.

Você não basta para mim. É sempre a mesma frase me machucando.

Sinto-me um sepulcro fechado. As estrelas, as eternas estrelas. Tem uma tão fraquinha que que acho que jamais alguém viu.

Por que de novo está acontecendo isso comigo? Acho que gente pergunta isso só para as coisas que não gosta. Bom, provavelmente porque ainda não aprendi a lidar com essa situação. E a vida se repete sempre, “porque isso não vai parar, isso não vai parar, isso não vai parar, até você se tocar".

Quero chuva de sapos. Que acontece, acontece. Choveu sapo em 1873 em Kansas City. Sangue em 1890 na Itália. Peixe em 1861 em Singapura. Que século de chuvas bizarras! Sapos significam o 'letting go'. Let it go! Again, again, again… Frogs washing over me.

Eu continuo amando o céu com estrelas, quem sabe cai uma estrela cadente. Um cometa? Mas eu continuo sentindo muito, intensamente, dolorosamente e sem fim. Quando dói, dói, dói. Quando fico feliz, o mundo me engole. Uma noite estrelada vale a dor do mundo, foi a Adélia Prado quem disse, acho.

Quem sabe sapos chovem. A lua está cheia.

Nada.

Fui fazer yoga hoje. A lua é um mistério. As estrelas.

...


“Mas existem também drogas pra dormir
E ver os perigos no meio do mar
No sono pesado, tudo meio drogado
Existem pessoas turvas, pessoas que gostam”


Arundhati. Os homens normais acham muito difícil, de fato quase impossível, ver esta estrela por ser tão fraca. Lembro de minha aula de línguas indígenas de quando ainda era aluno de Letras. Sabe que havia uma moça do Chaco que amava Plêiades? Um dia Plêiades veio ao mundo e o milho foi criado no Chaco. Um dia ele foi embora, de volta para o céu, e ela virou orquídea. Foi assim que a orquídea passou a existir na terra. Foi assim que a teologia apofástica fez sentido na minha vida. Nessa língua é possível conjugar na voz antipassiva. É uma voz contrária à passiva. Traz um sentimento de incompletude, de não afetar de fato o seu objeto. Inemata quer dizer te amo à distância e sem te ver. Inejigota é eu te como com os olhos.

Sinto que tem alguém me seguindo. Me acusam de ser composto por um pé degenerado. Degenerado? Falam que busco sílabas menores, sem ataque, com boas codas bissilábicas. Mas sou mal compreendido. Quero a palavra apenas. A palavra divina. Ser sufixado a ela.

É língua materna pela população de Mattur no Karnataka. Tudo faz sentido agora. Fugir. Quem me persegue? Sou inocente. Mal compreendido. Azul e amarelo... Mattur...

Sai do jardim. Olha, então, para a capa de seu livro recém publicado. Embaixo do título, seu nome, Alan A. Moonsfield. Mais à esquerda, um revólver.

Gotas de suor pingando. Gotejando lento. A cabeça confusa recebia ao mesmo tempo sua dose de café e nicotina, de cocaína. Acende um baseado para dormir.

“Senhores deuses, me protejam
De tanta mágoa
Tô pronto para ir ao teu encontro
Mas não quero, não vou, não quero
Não quero, não vou, não quero”

(para leitura completa do folhetim como está até agora, visite www.negrados.wordpress.com)

quarta-feira, maio 14, 2008

Tô triste mesmo, Haquira

Me informaram que Haquira Osakabe morreu. Estou profundamente triste. Ele foi um professor de grande importância para mim. Um choque bom na minha vida. Fiz literatura portuguesa com ele. Eu sempre gostei de literatura e quando vim para o IEL foi pela literatura; acabei me descobrindo lingüista, meramente apaixonada por literatura portuguesa. Aprendi demais com Haquira. Na primeira prova ele me deu 3,0 e me chamou para conversar. Tivemos uma conversa muito séria a respeito de minhas fraquezas. Eu acho que foi um dos eventos mais marcantes de aprendizado da minha graduação. Não deu para eu seguir este campo, mas posso dizer que as coisas aprendidas me valem até hoje. Mesmo ainda fraca, nem posso dizer o quanto aprendi e como melhorei naquele semestre. Obrigada. De você eu nunca vou me esquecer. Saudades de sua aluna, Filomena.

domingo, maio 11, 2008

Estranjis

Nove horas. Uma porta cheia de desconhecidos para mim, os outros pareciam se conhecer, faziam grupos, chegavam de dois. Eu sozinha, encostada na parede. Estrangeira em tribos que sempre fui, posso acabar me fazendo aceita. O Renato chega, naquele dia também não sabia o que iria se passar. Parecia nervoso também e se encostou em mim. Agora, braço com braço, havia uma unidade e eu sabia que, juntos, não haveria mais estranhesa. Uma coisa que temos em comum é saber cativar e formar um grupo. Antenas ligadas nas conversas de todos e uma menina disse sobre situações embaraçosas: ouvir escarcéu sexual no cômodo ao lado. A deixa, esse é o assunto. Em pouco tempo era um grupo só de amigos quase num bar, embora na parede e com frio.
Um a um fomos chamados para entrar e entregar o documento. Ao entrar, tivemos que falar com uma tela de computador, e veja bem, falar nome e idade e de onde vinha, com lembranças do local de origem, com documento entregue. Sendo observados pelo ator e diretor. Sempre, todo o tempo, observados pelo diretor, só observados, que sentava ao meu lado às vezes, mas que era platéia, e platéia não responde se convocado discursivamente, não é? Quem me conhece sabe que nada poderia ser pior que isso. Quem me conhece, não preciso dizer aqui, qual era meu grande incômodo. Podia ter sido pedida qualquer coisa, o pior foi o pedido. Sem meu documento, olhado para confrontação, declarei tudo o que foi pedido. Enfrenta, Filomena, sua decisão agentiva de participar e enfrentar qualquer coisa. Obviamente o vídeo foi passado durante a peça, informação pública, nem me olhei obviamente. Depois o ovo. Ai, que boa sensação. Afinal essa era a minha única certeza da noite, o ovo que segurei afetivamente durante muito tempo, até ser quebrado por ordem. Depois disso, fui encaminhada ao banheiro, onde todos ficamos um presos. Havia um filme passando com muita gente loira pelada. Apertado aquele banheiro, com janela fechada, que abafado! Mas o grupo, já unidade formada, estava lá dando um aconchego. Mas eu e outra moça ficamos para o final da libertação. Ganhamos um papel com um texto conhecido e logo depois da libertação, com todos os outros preparando a comida sob ordens, fomos mandadas, nós duas, sentar em cada canto da sala de jantar e ler (de certa forma, interpretar, um trecho de três páginas do Pequeno Príncipe, com instruções quando não estava bom. Eu era a Raposa.


- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

Você me cativou, porra! Eu que não consegui. Que porra! Dor de raposa dói viu? Dói para cacete! Sabe o resto do livro, é?

O polícia dos documentos, e depois cozinheiro, não fazia, de fato, interação. O ator principal sabia, ensaiado. Coadjuvante eu. Mas o grupo era grupo, o estranho era ele. Me incomodou, e eu entrei na peça de verdade e confrontei-o. Faz amizade comigo, porra. Me enxerga. Qual é o seu nome? Era polícia e agora cozinheiro! Quem é você? Fui obviamente deportada e trancada no banheiro de novo. Sentei na privada e passei a ver um pouco do filme. Libertada de novo. Volto e aceito as ordens, pico tomate, alface, ovo, meu ovo. O cozinheiro mandou cortar a lecuga e ninguém parecia entender. OK, OK, eu entendi, pico direitinho. Era bem difícil entender esse cara falando espanhol com sotaque basco.

Comemos. O diretor ao lado. Platéia de vidro. Não enfrento. Não se enfrenta platéia, mas o outro está dentro, porra.
De novo, falei provocações e meu documento ficou preso até o final, sendo olhada com cara de provocação, de frente.
Depois discutimos arte muito.
Arte é mais estravazar, disse o Renato.
Arte é sair da morte e vir para a vida, a morte se transformando em vida, num casulo de durex representando.
Eu vivi a arte como atuante e como debatedora leiga, mas adorando. Não posso repetir; a gente pode entender algo quando começa uma aula muito bacana, mas de início não pode repetir, pois era fora do casulo, não entendo teoria de arte. Não processa de imediato.
O João, que é fascinado por morte, desenvolveu a idéia de que se pode escolher o momento da morte e morrer é agentivo! Que encontro formidável.
Eu fiquei até o final. Eu sei quando a morte chega, mas eu escolhi agentivamente a enfrentar. Podia não ir, e ficar na dúvida para sempre? Não, melhor enfrentar categoricamente e agentivamente o momento de morte, para renascer de outra forma cada dia.
Fiquei até o final. Ainda tem mais. A certeza tão grande como a do ovo. Quando o último grupo falou que iria e disse que iria pegar minha bolsa. A raposa é finalmente abraçada pelo cativador e o abraço fica demorado, segurada no casulo, e todos se vão. Tchau Filomena. Mais ninguém. Momento do beijo. Quer ficar? Quero, então vem cá. Senta no mesmo lugar de sempre. Eu conheci no Rio outra mulher e me apaixonei. Quer ficar? Não. A gente se vê. Eu não quero te perder. A gente se vê mesmo? Claro! A gente se vê! (Eu sou brasileira na cabeça).
Morrer é transitivo.


"tu mirada me toca - me penetra - y no me gusta – me siento violentada – violada - privada de mi cuerpo – rehén de tu mirada – prisionero -mi cuerpo
y al mismo tiempo – en fin… vivo - por fin - lo siento – soy - mi cuerpo
tu mirada - en mi cuerpo – es una asustadora presencia – que despierta – en mi – en mi cuerpo – un dolor – que me atrae – y no quiero
aunque cierres los ojos tu mirada me toca – mi cuerpo en tu cerebro – no me pertenece – rehén de tu deseo – mi cuerpo – lo siento – mas que nunca – presente – soy – existo – mi cuerpo
no cierres los ojos – que aunque me haga daño tu mirada – en mi cuerpo – prefiero la violencia – tu violencia – la violencia - que tanta ausencia de ternura – que la indiferencia – el miedo – el abandono – mejor tu mirada que me desconoce – mejor - que me fragmenta – mejor - me divide - me aliena – mejor – mejor que un cuerpo ausente que pesa - me pesa – mi cuerpo - me duele – no cierres los ojos – que necesito – mi cuerpo – para seguir – viviendo – mi cuerpo"

Norberto Presta



Quando a arte é vida. Adeus.


Em cada velha árvore, tem uma orquídea agarrada. Orquídea que lamenta e conta a história de chegadas e partidas. Fala das estrelas do céu em flores roxas, brancas, coloridas de saudades. Ninguém nota a orquídea que mais que todos carrega o silêncio e tantos gritos? A orquídea fica olhando tantas partidas, tantos vazios. Sempre presa. Sabe que as orquídeas são um desafio para os teóricos, no que diz respeito ao próprio conceito de espécie? Há muitas orquídeas. As orquídeas se misturam infinitamente quando postas em contato. As orquídeas podem misturar suas espécies e obter uma combinação quase infinita de novas formas e cores. Ninguém vê que a arte é mistura? Pode-se misturar como quiser, criando novas cores e idéias. Anna passou a vida fazendo seu revolucionário morto voltar à vida. Ele virou não pessoa por ordem e costume da ditadura russa. A orquídea mistura e tudo volta para a realidade em forma de mais e mais cores. Nada faz sentido? Que importa? As raízes das orquídeas podem perturbar um amante de plantas. Com umas formas que mais fazem lembrar algum aracnídeo e de uma cor esverdeada quando geralmente as raízes das plantas são brancas (sem cor). Não faz sentido ainda? Que importa?




Filomena

quinta-feira, maio 08, 2008

Morrer, verbo transitivo (capítulo II)

Não o amaria de fato? Tornar-se sufixo leigo e ter que carregar um grande crucifixo no pescoço era bastante peso para um jovem sonhador. O homem mudara muito depois de tomar essa decisão. Nem sempre fora assim feio e calvo. Fotos antigas apresentam um jovem esguio com fartas cabeleiras encaracoladas. Não. Ela ainda o amava, mas estava possuída por sede de vingança e frustração sexual. A mulher estava certamente perturbada. Eu podia notar pelas estranhas sentenças pronunciadas em voz trêmula. Afirmava, sem o menor contexto, que morrer se tratava de um verbo ativo. Morte agentiva? O que Morfema queria dizer com isso? O caso me intriga. Não, não se trata do dinheiro. É realmente peculiar.

O que teria feito o homem torna-se sufixo? Segundo Morfema, tratava-se de um homem ambicioso. Por que não, ao menos, circunfixo? Morfema informara que tudo começou quando ele, até então, professor de literatura e artes em famosa univesidade, interessou-se pelos escritos antigos de Panini, em especial, pelo Ashtadhyayi, escrito em oito livros.

Passei a pesquisar Panini. Há muita especulação sobre o local e a época em que ele viveu. Supõe-seele tenha vivido em Shalatula, nas margens do Indus, entre 520-460 a.C. Panini faz referência aos conceitos do dharma (o caminho da justiça), e de chandasi (hinos). Estaria a sua mudança de vida calcada nestes conceitos? Ou seria mais adequado pensar na mitologia de que Panini foi inspirado por um sonho em que ele ouviu o som do damaru do deus Shiva, que tocou cinco vezes de um lado e nove vezes do outro. Este conjunto de catorze sons, conhecido como o Shiva Sutra, tornou-se a base de sua obra. Seria, então, o Shiva Sutra a origem de tudo?

Mas Morfema era ainda mais intrigante, com aquele véu preto sobre o rosto, escondendo sua verdadeira identidade, uma personagem sombria que defendia que morrer é agentivo. Afirmando que toda a evidência se encontrava nas listas. Que listas seriam estas?

(Capítulo I em cutia.wordpress.com)

Sobre Adjetivizador vs. Adjetivador

Sobre este terrível impasse, posso apenas recorrer ao texto que segue, pedindo às bases para que tomem uma decisão política.

Complicabilizando

RICARDO FREIRE

Não, por favor, nem tente me disponibilizar alguma coisa, que eu não quero. Não aceito nada que pessoas, empresas ou organizações me disponibilizem. É uma questão de princípios. Se você me oferecer, me der, me vender, me emprestar, talvez eu venha a topar. Até mesmo se você tornar disponível, quem sabe, eu aceite. Mas, se você insistir em disponibilizar, nada feito.

Caso você esteja contando comigo para operacionalizar algo, vou dizendo desde já: pode tirar seu cavalinho da chuva. Eu não operacionalizo nada para ninguém. Tampouco compactuo com quem operacionalize. Se você quiser, eu monto, eu realizo, eu aplico, eu ponho em operação. Se você pedir com jeitinho, eu até implemento. Mas, operacionalizar, jamais.

O quê? Você quer que eu agilize isso para você? Lamento, mas eu não sei agilizar nada. Nunca agilizei. Está lá no meu currículo: faço tudo, menos agilizar. Precisando, eu apresso, eu priorizo, eu ponho na frente, eu dou um gás. Mas agilizar - desculpe, não posso, acho que matei essa aula.

Outro dia mesmo queriam reinicializar meu computador. Só por cima do meu cadáver virtual! Prefiro comprar um computador novo a reinicializar o antigo. Até porque eu desconfio que o problema não seja assim tão grave. Em vez de reinicializar, talvez seja o caso de simplesmente reiniciar, e pronto.

Por falar nisso, é bom que você saiba que eu parei de utilizar. Assim, sem mais nem menos. Eu sei, é uma atitude um tanto quanto radical da minha parte, mas eu não utilizo mais nada. Tenho consciência de que a cada dia que passa mais e mais pessoas estão utilizando, mas eu parei. Não utilizo mais. Agora eu só uso. E recomendo. Se você soubesse como é muito mais elegante, também deixaria de utilizar e passaria a usar.

Sim, estou me associando à campanha nacional contra os verbos que acabam em "ilizar". Se nada for feito, daqui a pouco eles serão mais numerosos do que os terminados simplesmente em "ar". Todos os dias os maus tradutores de livros de marketing e administração disponibilizam mais e mais termos infelizes, que imediatamente são operacionalizados pela mídia, reinicializando palavras que já existiam e eram perfeitamente claras e eufônicas.

A doença está tão disseminada que muitos verbos honestos, com currículo de ótimos serviços prestados, estão a ponto de cair em desgraça entre pessoas de ouvidos sensíveis. Depois que você fica alérgico a disponibilizar, como você vai admitir, digamos, "viabilizar"? É triste demorar tanto tempo para a gente se dar conta de que "desincompatibilizar" sempre foi um palavrão.

Precisamos reparabilizar nessas palavras que o pessoal inventabiliza só para complicabilizar. Caso contrário, daqui a pouco nossos filhos vão pensabilizar que o certo é ficar se expressabilizando dessa maneira. Já posso até ouvir as reclamações: "Você não vai me impedibilizar de falabilizar do jeito que eu bem quilibiliser". Problema seu. Me inclua fora dessa.


--------------------------
Fonte oficial: Revista Época (25/09/2003) - Seção Xongas
_________________

PS: O segundo capítulo de Morrer, Verbo transitivo já está sendo elaborado.

quarta-feira, maio 07, 2008

Vem aí!!!

Os Genellas LTDA orgulhosamente anunciam mais uma mega produção:


MORRER: Verbo Transitivo!


Alguns personagens principais já contam com inscrições (ver abaixo possíveis candidatos para os papéis de Sufixo e Adjetivizador/Adjetivador). Está aberta também a vaga para Morfema.

Sufixo

Adjetivador/Adjetivizador (?) Particular

Marcadores:

terça-feira, maio 06, 2008

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

CDA
____

Aproveito o post para fazer propaganda de um novo blog, muito bom, o blog do Adilson (http://negrados.wordpress.com). Tão bom que agora eu tenho vergonha do meu... Aproveito também para espalhar a propaganda postada por Negrados: "a banda de rock Nine Inch Nails resolveu entrar na briga a favor da distribuição de música gratuitamente pela Internet e o fez prá valer. Desde a madrugada de segunda-feira, pela primeira vez um “superstar” do pop rock mundial distribui um álbum completo na Internet sem que ninguém pague nada por isso.". Quem quiser baixar, tem um link lá nos Negrados! Aché!