quinta-feira, abril 28, 2005
Sabe aqueles períodos da vida em que se pergunta o que estamos fazendo ainda nesta vida. Estou em um destes. Que grande merda! Melhor nem falar comigo.
terça-feira, abril 19, 2005
A grande pequena palestra
Ontem dei uma palestra sobre meu trabalho com línguas indígenas para um público muito exigente, que, se estiver chato, se levanta em massa para ir embora, e, pior, diz que está chato: crianças de 3 a 5 anos. Estava tão nervosa, mas deu tudo certo. Foi na escolinha de meu filho que vai fazer 3 anos. O melhor foi ver a cara dele me vendo falar sobre a decoração da nossa casa. Não entendia como eu podia dizer que o revisteiro era um berço e a decoração da parece, pente, apito e espanador. Achou a mãe uma louca, o que não deixa de ser verdade.
domingo, abril 17, 2005
Intervalo
Eu só quero o silêncio neste porto
Do mar vermelho, do mar morto
Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias
Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma,
Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam.
Sophia Andrensen
Do mar vermelho, do mar morto
Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias
Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma,
Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam.
Sophia Andrensen
sábado, abril 16, 2005
Cheiro de terra ao sol
Meu amor
eu queria hoje escrever-te
um poema simples,
de sentimento com saber de sol.
Inteiro e cheio de cor de terra molhada,
discurso perfeito que não se abala.
Mas o simples
é deixar as vidas trancadas,
para sempre enterradas em um buraco de terra ao ardor do sol.
Porque nenhuma cor é mais escura que daquela fenda seca,
onde tua ira está perdida,
em que te transformas em nada.
Simples agora
é o simples dizer que não te quero.
E concluir que nenhuma ausência
pode ser tão funda e escura que a tua.
Onde estás sentimento de amor?
Não és agora mais que pó ao vento.
eu queria hoje escrever-te
um poema simples,
de sentimento com saber de sol.
Inteiro e cheio de cor de terra molhada,
discurso perfeito que não se abala.
Mas o simples
é deixar as vidas trancadas,
para sempre enterradas em um buraco de terra ao ardor do sol.
Porque nenhuma cor é mais escura que daquela fenda seca,
onde tua ira está perdida,
em que te transformas em nada.
Simples agora
é o simples dizer que não te quero.
E concluir que nenhuma ausência
pode ser tão funda e escura que a tua.
Onde estás sentimento de amor?
Não és agora mais que pó ao vento.
Ânsia
Na treva que se fez em torno de mim
Eu vi a carne. Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.
Eu gritei. De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma.
E ninguém me atendeu.
Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno de mim
E eu caí! As horas longas passaram.
O pavor da morte me possuiu.
No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.
Tudo quedou na prostração.
O movimento da treva cessou ante mim.
A carne fugiu.
Desapareceu devagar, sombria, indistinta,
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais? Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis
Não os bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis na balbucio da oração?
Carne que possuiu a carne onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria neste vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei...
Caminhei em rumo, para ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar,
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento...
Dá-me apenas a aurora,
Senhor já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.
Vinicius de Moraes
Eu vi a carne. Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.
Eu gritei. De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma.
E ninguém me atendeu.
Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno de mim
E eu caí! As horas longas passaram.
O pavor da morte me possuiu.
No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.
Tudo quedou na prostração.
O movimento da treva cessou ante mim.
A carne fugiu.
Desapareceu devagar, sombria, indistinta,
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais? Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis
Não os bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis na balbucio da oração?
Carne que possuiu a carne onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria neste vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei...
Caminhei em rumo, para ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar,
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento...
Dá-me apenas a aurora,
Senhor já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.
Vinicius de Moraes
Quero Escrever o Borrão Vermelho de Sangue
Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.
Clarice Lispector
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.
Clarice Lispector
sexta-feira, abril 15, 2005
Continuando com Florbela
...pra viver são precisos amores, pra morrer, e são precisos sonhos para partir.
quarta-feira, abril 13, 2005
Minha Culpa (Florbela)
Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor...
Uma estátua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor...
segunda-feira, abril 11, 2005
Mais um pesadelo, socorro
Duas casas geminadas
Um assassino em uma delas.
A outra era a minha.
Entrei à noite, escura sem estrelas, sem luz.
O assassino estava esperando.
Me atacou com uma faca.
Gritei para o primeiro morador da casa.
Ele já estava morto e nada podia fazer.
Gritei para o segundo.
Havia tomado muito remédio para dormir.
Não podia acordar.
O terceiro, que nunca ocupou verdadeiramente a casa, não ouviu.
"Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer"
Um assassino em uma delas.
A outra era a minha.
Entrei à noite, escura sem estrelas, sem luz.
O assassino estava esperando.
Me atacou com uma faca.
Gritei para o primeiro morador da casa.
Ele já estava morto e nada podia fazer.
Gritei para o segundo.
Havia tomado muito remédio para dormir.
Não podia acordar.
O terceiro, que nunca ocupou verdadeiramente a casa, não ouviu.
"Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer"
sexta-feira, abril 08, 2005
Paredes claras
Dia de horas claras, em minha visita de maravilhas raras, abre a porta de minha alma. Mantenha-me em paredes claras. Tira a maresia de mim e me reivente neste carinho sem fim.
quinta-feira, abril 07, 2005
Bom agouro
A mandinga já surte resultados. Um aluno meu recebeu verba internacional de pesquisa junto de alguns poucos outros alunos de grandes universidades. Que seja apenas o primeiro a ter bastante sucesso! Parabéns, Filomena.
quarta-feira, abril 06, 2005
Feliz!
Caros leitores:
Tenho uma notícia bem curtinha e boa. Bem simples. Tudo bem simples. Estou FELIZ! Depois de tantos meses, estou simplesmente feliz! Que minha alegria seja infinita enquanto dure!
Filomena
Tenho uma notícia bem curtinha e boa. Bem simples. Tudo bem simples. Estou FELIZ! Depois de tantos meses, estou simplesmente feliz! Que minha alegria seja infinita enquanto dure!
Filomena
segunda-feira, abril 04, 2005
Poe
Corvos que procuram mortos-vivos, devorem estes seres que fugiram apenas de si mesmo para nunca mais.
O CORVO
Edgar Allan Poe
Tradução de Fernando Pessoa (1924)
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais."
And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamp — light o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted — nevermore!
O CORVO
Edgar Allan Poe
Tradução de Fernando Pessoa (1924)
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais."
And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamp — light o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted — nevermore!

