sexta-feira, julho 05, 2013

SE TERMINAR ESTE POEMA, PARTIRÁS

Se terminar este poema, partirás. Depois da mordedura vã do meu silêncio e das pedras que te atirei ao coração, a poesia é a última coincidência que nos une. Enquanto escrevo este poema, a mesma neblina que impede a memória límpida dos sonhos e confunde os navios ao retalharem um mar desconhecido está dentro dos meus olhos – porque é difícil olhar para ti neste preciso instante sabendo que não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que continuo a amar-te em surdina com essa inércia sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não beijos, porque o poema é o único refúgio onde podemos repetir o lume dos antigos encontros. Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui, que apenas escreva até ao fim mais esta página (que, como as outras, será somente tua – esse beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade nos faz adultos para sempre, sei que te perderei em qualquer caso: se terminar o poema, partirás; e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á a última coincidência que nos une. MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in O CANTO DOS VENTOS NOS CIPRESTES (Gótica, 2002), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)