sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Olhem que coisa! (para quem conhece a figura)

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terça-feira, fevereiro 10, 2009

Para refletir

Notícias Terça-Feira, 10 de fevereiro de 2009

JC e-mail 3694, de 03 de Fevereiro de 2009.
15. Daniel Everett, o iconoclasta

Linguista americano conta em livro como uma tribo do Amazonas o transformou de missionário evangélico em cientista ateu, e como as peculiaridades da língua dessa tribo podem pôr em questão a teoria mais famosa da linguística, a Gramática Universal de Chomsky

Claudio Angelo escreve para a “Folha de SP”:

O americano Daniel Everett, 55, negou Deus por duas vezes. Primeiro o Deus literal, cristão, cuja inexistência declarou depois de conviver por décadas com os índios pirahãs, do Amazonas, com o propósito inicial -frustrado- de traduzir a Bíblia para a sua língua. Depois, o deus dos intelectuais, Noam Chomsky, cuja Gramática Universal, a mais ilustre de todas as teorias linguísticas, passou a ser questionada por Everett justamente por causa de peculiaridades do idioma pirahã.

Professor da Universidade do Estado de Illinois, Everett tem protagonizado nos últimos anos uma verdadeira guerra com os linguistas da escola de Chomsky, os generativistas.

Ele afirma que seus estudos sobre a língua pirahã -iniciados em 1977 quando ele veio para o Brasil a serviço da organização missionária Summer Institute of Linguistics, ou SIL- derrubam a Gramática Universal por uma série de fatores.

O idioma pirahã, diz Everett, não partilha supostos universais linguísticos tidos como essenciais para a Gramática Universal, segundo a qual a biologia humana molda a linguagem e a variação gramatical possível nas diferentes línguas. O principal ponto é a alegada falta de recursividade do pirahã, ou seja, a capacidade de formar frases infinitamente longas encaixando elementos um no outro. No fim do ano passado, Everett lançou no Reino Unido o livro "Don't Sleep, There Are Snakes" ("Não Durma, Aqui Tem Cobra"), no qual desenvolve mais amplamente, para o público leigo, sua tese.

A obra vai muito além da linguística. Ele narra sua trajetória de três décadas entre a tribo, uma verdadeira saga que envolveu mudar-se com a mulher e três filhos pequenos dos EUA para o meio da selva, uma crise de malária que o fez remar por horas e viajar por dias de barco para salvar sua mulher (que insistia para ficar na aldeia, esperando que Deus a curasse) e ameaças de morte. E todo o processo que o fez se transformar de missionário evangélico em cientista ateu.

É cedo para dizer se as ideias de Everett representam um golpe mortal para a teoria chomskiana. (Não seria de todo impensável: o próprio Chomsky protagonizou um episódio desses, quando pôs abaixo em 1959, com um único artigo, toda a psicologia behaviorista de B. F. Skinner.) "Don't Sleep, There Are Snakes" não avança nesse sentido.

No entanto, é um livro que precisa ganhar logo uma versão brasileira, por conta do olhar perspicaz de Everett sobre a vida na Amazônia.

Enquanto militares e ministros do Supremo discutem se as terras indígenas representam perda de soberania sobre a floresta, Everett e outros "gringos" que escrevem bons livros a respeito da região acabam por internacionalizá-la metaforicamente, ao aproximá-la do coração e da mente de seus leitores... em inglês.

De seu escritório em Illinois, falando um português com sotaque manauara, Everett deu a seguinte entrevista à Folha:

- O sr. entrou na Amazônia como um missionário cristão e saiu de lá como um cientista ateu. Como aconteceu essa "desconversão"?

Everett - Eu nunca me converti até os 17 anos, quando comecei a namorar uma filha de missionários. Eles me falaram sobre as necessidades dos índios do Amazonas. Eu, como novo cristão, pensei que isso seria melhor que ficar nos EUA. Em 1978 eu fui para a Unicamp fazer mestrado, e obviamente não tem muito fundamentalista lá. E comecei a admirar muito o Aryon [Rodrigues, orientador de mestrado de Everett e principal estudioso de línguas indígenas do Brasil, hoje na UnB]. Uma vez ele me convidou para uma palestra que o Darcy Ribeiro foi dar na Unicamp quando voltou do exílio. A ideia de chegar para o Darcy Ribeiro e dizer que ele ia para o inferno sem Jesus Cristo parecia tão ridícula que eu comecei a pensar sobre essas crenças. Quando comecei a falar com os pirahãs, fiquei no meio do mato conversando com um grupo de pessoas que nunca manifestaram interesse nesse Deus do qual eu falava.
Pensei: "O que eu estou dizendo realmente deve ser muito irrelevante para eles". E finalmente eu vi que intelectualmente eu não podia mais sustentar essa crença em mim.

- Como é a sua relação com os missionários do SIL hoje?

Tenho relação próxima apenas com minha filha é missionária lá, e o Steve Sheldon, que trabalhava entre os pirahãs antes de mim. Eles não viraram meus inimigos, mas sou contra o trabalho Minha filha e eu não falamos sobre isso. A ideia de chegar para o Darcy Ribeiro e dizer que ele ia para o inferno sem Jesus Cristo parecia tão ridícula que eu comecei a pensar sobre essas crenças

- O sr. conhece algum caso de evangelização que tenha sido danoso para os índios?

Você tem entre os índios banawás e os índios jamamadis os missionários mais conservadores. Os banawás tiveram um casal pentecostal entre eles e um casal do SIL. Você tinha dois casais de missionários num grupo de 79 pessoas. É demais. Você tinha índios que achavam que Deus ia curar picada de cobra, malária, essas coisas. Os missionários sempre justificam sua presença nas aldeias pelo trabalho médico. Hoje, com a Funasa assumindo um papel importante nas aldeias, eu não vejo nem essa necessidade para os missionários. Acho que pregação, traduções, "testemunhos" etc. são superstições e não vejo como superstições podem ajudar os índios. É a mesma coisa de dizer que os índios não podem viver bem sem crer em Papai Noel.

- O sr. publicou suas conclusões sobre a língua pirahã num livro para o público leigo, quando o procedimento padrão é publicar em um periódico científico. O livro vem em vez de uma publicação científica ou além dela?

Além. Vai sair em setembro. A revista "Language", a mais importante da linguística dos EUA, terá um artigo de 50 páginas atacando meu trabalho e uma resposta minha do mesmo tamanho. Eu não considero meu livro um livro principalmente linguístico. Ele trata de aspectos da minha vida e da minha interação com os pirahãs.

- Qual é sua crítica à Gramática Universal de Noam Chomsky?

A Gramática Universal tem muitas formas. Se você tomar a ultima versão dela, nas formulações mais recentes do Chomsky, a GU (Gramática Universal) é a "teoria verdadeira da base biológica da gramática". Bom, se aceitarmos isso, a proposta perde todo o interesse, porque ninguém duvida de que os humanos têm uma biologia que é responsável pela linguagem. Mas as versões anteriores atribuíam princípios e parâmetros à Gramática Universal. No trabalho com Tecumseh Fitch e Marc Hauser [de 2003], Chomsky fala ainda de outros conceitos, a Faculdade Ampla da Linguagem e a Faculdade Estrita. Eles dizem que "talvez" a única característica específica da faculdade estrita seja a recursividade. Isso faria parte dos genes. Tudo bem. Então, digamos que haja uma língua sem recursividade -candidatos além do pirahã incluem o nunggubuyu, da Austrália, e o hixkaryana, do Brasil. Bom, Chomsky diz que nem todas as línguas são obrigadas a manifestar a recursividade. Mas, se existe uma língua sem ela, poderia haver duas? Três? Se uma língua pode existir sem recursividade, todas poderiam. Então que sentido faz dizer que recursividade é fundamental mas não é obrigatória?

- Como a academia tem reagido às suas ideias?

Você tem quatro tipos de reação. Há pessoas que não gostam de Chomsky e vão aceitar qualquer argumento contra Chomsky; você tem os chomskianos, que não vão aceitar de jeito nenhum um ataque à Gramática Universal; você tem pessoas que têm inveja, ou reagem mal, a toda a publicidade que eu venho recebendo; e tem pessoas que querem saber onde estão os dados. Esta é a reação mais saudável.

O sr. diz que o pirahã é uma língua única, que coloca em questão a teoria chomskiana. E, ao mesmo tempo, diz ser o único não-pirahã a dominar a língua. Então a questão permanecerá em aberto até alguém mais aprender a língua e confirmar ou não os seus achados.

- Ou até um pirahã fazer um doutorado em linguística. Eu já levei pessoas para fazer experiências. Há 20 anos, quando eu publiquei um artigo sobre o sistema de acentuação na língua pirahã, isso criou uma controvérsia na linguística. Então o maior foneticista do mundo, Peter Ladefoged, foi comigo para a aldeia, fez testes e agora isso é aceito entre os linguistas. Há maneiras de fazer a experiência sem usar a língua, ou usando a língua muito pouco. Minha hipótese é falseável. Você tem de planejar as experiências, ir lá fazer e contar a história. Mas é difícil. Eu já trabalhei com vários grupos indígenas do Brasil e os pirahãs são o único grupo com o qual eu não posso trabalhar usando o português. É falseável, mas não vai ser fácil. Eu sei que não vai ter uma aceitação de 100% dos linguistas. Mas eu não acho que os pirahãs sejam um caso único em tudo. Estou dizendo que é um caso primeiro de um contraexemplo da teoria de Chomsky.

- Chomsky diz que o sr. entendeu tudo errado.

Meu primeiro aluno de doutorado foi o professor Ed Gibson, que trabalha no departamento do Chomsky no MIT. Ele não conseguiu esse emprego porque teve uma má orientação. Eu passei um ano com o Chomsky e em todos os anos em que eu praticava a teoria generativa o Chomsky me deu cartas de recomendação. Só agora, que eu estou tentando dizer que ele está errado, é que eu não entendo a teoria.

- O sr. diz que os pirahãs são monoglotas, mas eles estão em contato há 200 anos. Como é possível?

Alguns pirahãs falam um pouquinho de português, ainda mais os termos de troca. Mas tem outro fenômeno interessante: às vezes, quando os pirahãs falam com um comerciante, eles usam palavras da língua geral, e o comerciante responde em língua geral [mistura de tupi, português e outras línguas amazônicas]. O comerciante acha que está falando pirahã e o pirahã acha que está falando português.

- O sr. apresenta no livro uma ideia chamada "princípio da experiência imediata", segundo o qual o ambiente torna a gramática pirahã tão peculiar. Mas há várias outras tribos que compartilham esse ambiente e não têm essa mesma limitação gramatical.

Essa preocupação com a experiência é comum na Amazônia. Os pirahãs a valorizam mais que outros grupos. A evidência é esse termo que eu menciono no livro, "xibipíío" (pronuncia-se " "ibipíu"), algo que entra ou sai da experiência imediata. Esse é um termo que eu nunca vi em nenhuma outra língua amazônica. Digamos que haja um certo número de coisas do ambiente que são comuns a todas as línguas amazônicas. Entre elas, cada língua tem o direito de valorizar ou ordenar as coisas de forma diferente. Uma cultura pode dizer que a experiência imediata é importante, mas é colocada num degrau mais baixo da escala de valores. Os pirahãs colocam esse princípio, que é compartilhado com outros grupos amazônicos, muito alto na escala de valores deles. E isso explica coisas muito particulares da cultura e da língua deles e que são raras em outros grupos, como a ausência de números.

- No ano passado, um general disse que a política indigenista do Brasil é caótica. Diz-se também que é muita terra para pouco índio. O sr. concorda?

Os pirahãs, que são 300 pessoas, junto com os parintintins, que são menos de cem pessoas, têm 330 mil hectares. Eles usam toda essa terra. E para os pirahãs ela deveria ter o dobro do tamanho. Os índios, tanto no Brasil quanto nos EUA, foram conquistados por culturas europeias, e essas culturas devem reconhecer o dever de deixar os índios em suas áreas tradicionais vivendo sem interferência, se quiserem.

- Nos EUA essa discussão está encerrada, não? Os índios têm terras grandes e o governo dos EUA não acha que elas sejam uma ameaça à soberania nacional.

É, mas o governo dos EUA tirou os índios dos melhores lugares há mais de cem anos. Os cherokees tinham terras lindas no Kentucky e no Tennessee e foram removidos para Oklahoma, que não tem nada! Agora, que eles descobriram como ganhar a vida com cassinos, as pessoas questionam seu direito de controlarem as reservas, porque fazem concorrência com Las Vegas.

"Ele virou um charlatão", diz Chomsky

Noam Chomsky não quer discutir Daniel Everett. Pede ao repórter que entre em contato com seu colega David Pesetsky, do MIT, que, com o americano Andrew Nevins e a brasileira Cilene Rodrigues, refuta Everett no artigo que sai em setembro na "Language". Mesmo assim, o maior intelectual vivo não se furta a dizer uma coisa ou outra sobre o discípulo rebelde.

"Ele virou um charlatão puro, embora costumasse ser um bom linguista descritivo. É por isso que, até onde eu sei, todos os linguistas sérios que trabalham com línguas brasileiras ignoram-no."

Segundo Chomsky, mesmo que o pirahã tenha todas as propriedades descritas por Everett, as implicações para a Gramática Universal seriam "zero".

"Everett espera que os leitores não entendam a diferença entre a GU no sentido técnico (a teoria do componente genético da linguagem humana) e no sentido informal, que diz respeito às propriedades comuns a todas as línguas", diz.

"Os falantes de pirahã têm os mesmos componentes genéticos que nós, então as crianças pirahãs tentam construir uma linguagem normal. Suponha que o pirahã não permita isso. Seria como encontrar uma comunidade que engatinha mas não anda, de forma que as crianças que crescessem lá provavelmente engatinhariam também. As implicações disso para a genética humana seriam nulas."
(Folha de SP, 1/2)

O gambazinho voltou

Tudo começou na sexta passada. Um filhote de gambá apareceu no iel. Com medo que pensassem que se tratasse de um rato, eu fiquei enlouquecida gritando para ninguém matar o pobre. Que animal pensam, pensam, pois ele se escondeu justo na minha sala. É certo que lá ele não pode ser molestado. Fui embora deixando a janela aberta para ele poder sair. Não morrer preso sem comida. Quando ele saiu, pegaram o bichinho e levaram para um mato longe. Pois hoje ele voltou para a minha sala! Ele se esconde atrás do armário. Fotos, se ele permitir, em breve. O que será que gambás comem?

Extranjis na casa da Filomena


Teatro do estrangeiro é atração em Campinas
Ator basco e diretor ítalo-argentino apresentam em Campinas um espetáculo inusitado.

08/02/2009 - 15h11 . Atualizada em 08/02/2009 - 15h13

Carlota Cafiero
Agência Anhangüera de Notícias


Imagine ter os documentos retidos por algumas horas e permanecer em uma sala com dezenas de pessoas, sem saber seu próximo destino? Milhares de estrangeiros, todos os dias, passam por situação semelhante, assim como é cada vez mais comum sabermos de brasileiros barrados em aeroportos e impedidos de entrar em algum território — especialmente na Espanha, que recrudesceu o cerco a imigrantes que permanecem ilegalmente no país.

Agora, imagine passar por uma situação como essa no espaço íntimo e seguro de sua casa. Pois, ironia à parte, é um ator basco (região Norte da Espanha) radicado no Brasil, Ieltxu Martinez Ortueta, do grupo Teatro Kapota mas não Breka, que está levando para residências campineiras a experiência de “sentir-se estrangeiro” por meio da performance teatral Extranjis, experiência iniciada em 2007, durante o Festival de Teatro y Danza Contemporanea de Bilbao.

Com direção de outro estrangeiro no Brasil, o ítalo-argentino Norberto Presta, o projeto ocupa — com o consentimento do morador — uma casa ou apartamento por algumas horas e coloca os espectadores dentro da ação teatral e determinando o tempo de duração da performance. O projeto foi contemplado com o Prêmio Interações Estéticas-Residências em Pontos de Cultura da Funarte.

A reportagem do Caderno C acompanhou a estreia oficial da performance na casa da professora universitária Filomena Sandalo, na Cidade Universitária II, em Campinas, no final de janeiro. A dona da casa chegou ao “acontecimento teatral”, como prefere Ortueta, no horário estipulado, às 21h, junto dos demais espectadores — cada apresentação comporta até 20 pessoas.

No limiar entre personagem e ator, Ortueta parece, em um primeiro momento, um oficial de alfândega, mas sem a rigidez deste. Ele surge na porta de entrada com um charuto e um drinque nas mãos. Gentilmente e em língua espanhola, solicita documentos a cada um dos espectadores.

Na sala principal, deparamos com câmeras e computadores que captam e mostram, em tempo real, as pessoas na sala. Então somos convidados a nos sentar de frente para o monitor e a falar o nome completo, o lugar de nascimento e as lembranças que temos do local de origem. As pessoas sorriem um tanto encabuladas umas às outras e se dirigem timidamente para a máquina.

A partir de então, tudo começa a ficar bastante surreal. Cada um recebe um ovo no qual tem de imprimir a digital e, com ele em mãos, é encaminhado a um banheiro. Ali, pessoas até então estranhas umas às outras começam a interagir. É uma situação bem diferente da plateia normalmente passiva do teatro.