terça-feira, março 29, 2005

Um dia amarelo roxo ouro

O crepúsculo anuncia o dia
de amarelo saudade roxa
Ocaso vermelho e nublado
ele traz a noite te ver dormir.

Quando músicas me dormem enfim
reaparecendo sem cor sonho
outro dia crepúsculo ouro
Sempre te penso te vejo sumir.

Serotonina

Gotas de serotonina
da calha veia viciada
da casa incendiada

Gotas de chuva pingando
tosca vontade intata
sem alma é espalhada

Coração batendo busco
nos impulsos do seu peito
sem nome a minha fome

Gota de amor profundo
busca só um grito fundo
no sal que agora funde.

___
___

Fiz letras porque queria ser poeta. Mas fiquei tão crítica, que virei lingüista, cientista. Mas nesta semana estou inspirada, e como este blog não é algo sério, me permito escrever qualquer coisa. Assim, acima estão duas das minhas ridículas composições. Ambas feitas hoje. Divirtam-se e sejam piedosos.

segunda-feira, março 28, 2005

Resposta ao tempo

A Jaqueline (do Rio) me falou para ouvir esta música da Nana Caymmi cantada por Marisa Monte. Algo a fez lembrar de mim. Acertou, minha linda, tem a minha cara. Fica, então, postada para lembrar este dia. Um beijo.

Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei
Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei
E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro sozinhos
Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver
No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer
No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer

domingo, março 27, 2005

Revés

Eu já me senti assim exatamente. Na páscoa não dá para não lembrar, mesmo depois de tanto tempo. O parto é mesmo, sem querer ser kitsch, o mais maravilhoso milagre da vida. Que orgulho carregar uma vida que criamos. Que orgulho ver a menininha dos olhos mais azuis do mundo que eu criei. Tenho fotos toda feliz com ela no colo, com ela ao lado, etc. A Julia nasceu na páscoa. Mas no dia 22 de maio, um mês e quatro dias após seu nascimento, seu coração parou. Foi a primeira vez que eu realmente rezei. Invoquei Lázaro. Ela ressuscitou meia hora depois. Milagre? Capacidade dos médicos americanos? Sei lá! Nem me interessa saber. O fato é que eu conheci o revés do parto.

sábado, março 26, 2005

Julieta pós-moderna, Luciana Mello

Ela acorda apressada, afinal, já passa das sete. Arma-se: pega o celular, o laptop, confere a agenda do dia em seu palm. Depois de beber um gole rápido de café, dá as coordenadas para a empregada, que ficará no comando do QG doméstico durante o dia e sai, marcando passos decididos do alto de seu salto sete. Sabe-se lá a que horas voltará para casa hoje...

Terceirização dos afazeres domésticos: este maravilhoso fenômeno da contemporaneidade feminina possibilitou que nós, mulheres, descobríssemos que há vida fora de casa. Mergulhamos de cabeça no mundo, mas, hoje, percebemos que não levamos bote salva-vidas!

Levantamos nossos sutiãs em praça pública, hasteando a bandeira simbólica da luta contra as amarras da sociedade capitalista, contra os preconceitos pequeno-burgueses machistas, contra qualquer lei que impusesse limites à liberdade de nossos seios. Achávamos que éramos libertárias, outsiders. Mas, literalmente, no bojo pré-moldado desta revolução, não conseguimos vencer a Lei da Gravidade e, como conseqüência, vivemos hoje a ditadura dos seios fartos, simulacros de silicone e andamos presas, em armaduras-sutiã com aros, espumas, enchimentos a óleo e água...Tudo, para reforçar a imagem do air-bag duplo.

Ah!, a imagem...Contra os milhares de radicais livres que andam soltos por aí, vestimos nossas poderosas máscaras cosméticas e tentamos dizimar com golpes cientificamente calculados, utilizando poderosos ácidos, toda e qualquer ruga que ouse surgir em nossa pele. É o arsenal bélico da guerra química da mulher pós-moderna, que se torna cada dia mais sofisticado — em vão — pois nós, guerreiras da imagem, mesmo empunhamos nossas poderosas armas, também não conseguimos vencer a luta contra o temível “Senhor da Razão”.

Declaramos guerra contra as gordurinhas localizadas, utilizamos instrumentos de tortura em nós mesmas, dando choques elétricos nos malditos lipídios que tentam se instalar em nossas curvas. Malhamos horas e horas nas academias porque queremos aparecer para o mundo com nossos corpos perfeitos. Mas ficamos revoltadas quando os homens nos chamam de gostosas, porque queremos que eles vejam que somos inteligentes!

Não há dúvidas de que conseguimos conquistar nosso espaço, em várias esferas da vida social. Nós votamos, estamos no planalto, na indústria, nas empresas, na mídia, temos até uma Secretaria de Estado dos Direitos da Mulher, que luta e articula em nosso favor no terrível mundo masculino da política.

No trabalho, conseguimos ocupar cargos de decisão. Galgamos nosso lugar e chegamos ao Everest do mundo corporativo. E, entre um telefonema e outro do dia-a-dia corporativo, damos ordens aos nossos subordinados e às nossas empregadas que ficaram em casa, corrigimos a lição de casa de nossos filhos, fazemos listas de supermercado pela internet e pensamos no cardápio do jantar, numa rotina quase esquizofrênica, que mostra que ainda não conseguimos solucionar o binômio dialético mãe-mulher de negócios.

Somos independentes, sim, ganhamos nosso próprio dinheiro, investimos na bolsa, fazemos aplicações, temos orgulho de planejar nossa vida material, de conseguir estabilidade à nossa própria custa, mas ainda nos sentimos ofendidas se temos que dividir a conta de um simples jantar com um homem. Somos independentes, sim, mas ainda sonhamos com um amor shakesperiano, uma família hollywoodiana e um príncipe encantado que nos proteja dos males do mundo e abra os vidros de azeitonas para nós.

Rechaçamos as mulheres que, por opção, escolheram ser donas-de-casa, cultivar o lar e ver seus filhos crescerem ao invés de acompanhar as ações da bolsa subirem.

Embora nunca teremos coragem de admitir os bastidores de nossos sentimentos a quem quer que seja, somos machistas, sim! Somos sempre as pobres vítimas nas mãos desses inescrupulosos seres masculinos. Dizemos que os homens são todos iguais e somos incapazes de nos desarmar de nossos preconceitos feministas e sexistas para conviver harmonicamente, que seja, com as diferenças – que existem – entre nós e eles. Achamos, isso sim, que eles têm obrigação de nos entender...como se fosse tarefa fácil!

Não se trata de defender o masculino nem o feminino. Trata-se de ampliar nossa visão para o mundo e enxergar além da imagem refletida em nosso espelho. Ó espelho, espelho meu, se não conseguimos nem aceitar a diferença entre o masculino e o feminino, como saberemos qual é o nosso papel neste novo mundo da diversidade, mosaico e plural?

Apesar de todas as nossas conquistas que, como não nego, foram vitórias importantes ao longo da história da humanidade, ainda faltam muitos obstáculos — colocados por nós mesmas — a serem vencidos para chegarmos a ser “Mulheres Nota 1000”.

No fundo, somos todas Julietas pós-modernas. Mudaram as ambiências, vivemos num mundo mais complexo, mudaram as circunstâncias, mas nossa luta ainda é medieval: não nos libertamos dos nossos cintos de castidade...

Vivemos em um novo tempo e num novo espaço. Temos acertar nosso fuso-horário com o mundo e descobrir nosso lugar e nosso papel neste universo cibernético. Ainda temos muito, muito a aprender...

Julietas do mundo, uni-vos! A luta continua...

sexta-feira, março 25, 2005

Em tom vesgo de Sabino

Ainda é o mês do meu aniversário e, assim, continuo pensando no quanto eu já vivi. Penso que quanto mais vivi, mais perdi. Tudo está perdido e não há mais nenhum sonho para a minha própria vida, nada espero da vida para mim. Devo ter a humildade, nada comum em mim, em dizer: perdi. Essa é a verdade para mim e não vejo nenhuma outra. Que bom, porque só neste momento, sinto que, finalmente, procuro me viver melhor.

quinta-feira, março 24, 2005

MC de novo

Maria Clara, para você de novo. Respondendo ao seu último post, vai o seguinte. Viva feliz que o que você tem é o mais valioso da vida.

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado

quarta-feira, março 23, 2005

Nada

Resolvi hoje falar de vida. Mas viver apenas não basta. Resolvi hoje falar de liberdade. Mas liberdade é intolerável. Resolvi, então, falar de política. Mas esse assunto é, em si, insuportável. Convicção? Falar, brigar, viver por ela? Que saco! Resolvi hoje falar de homens. Mas duas noites seguidas com o mesmo é marido. E marido é chato, dá trabalho. Resolvi, então, falar de mulheres. Maternidade? Encontrei, então, mães neuróticas. Perguntam se suas crianças vão ser alfabetizadas. Por que fazem perguntas tão óbvias? Que tédio. Aprendi dizer não sei. Não quero hoje dizer nada.

segunda-feira, março 21, 2005

Mais sobre bruxas do sec. XXI

Maria Clara, você me pede uma mandinga de amor. Mas este tipo de mandinga eu desconheço, só posso dizer o que segue:

Futuros amantes
Chico Buarque

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

domingo, março 20, 2005

Ainda na onda do exoterismo

Ganhei um bonequinho de Vodu. Agora, qualquer raiva, espeto o "omi". Pode não adiantar de verdade, mas vai dar uma boa sensação de alívio. Mas se, por qualquer desventura enorme, ainda não aliviar, tenho a derradeira solução: reaplicar a mandinga:

Com tres Candeinhas asezas nua sem Camiza Com os Cabellos deitados pellas Costas abaCho fazendo mezuras pelos Cantos de Caza i abre a genela fora doras i dis palauras diaboliquas

Gritarei, então, minhas palavras malditas: maldito, lazarento, filho de um cão.

Com vodu e mandinga, não há quem resista.

Sobre a escrita

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Clarice Lispector

sábado, março 19, 2005

A dupla negação

Authier (1982) coloca que o “eu e o outro” opera dentro do discurso no espaço do não-explícito, do sugerido, instaurando no lugar de uma fronteira, de um limiar. Há uma presença diluída do outro no discurso de um eu. É neste contexto, que gostaria de sugerir uma tese sobre dupla negação, tão comum em alguns dialetos brasileiros, como o do nordeste. Não se trata de um bom tema para se sugerir para um gerativista, uma vez que gerativistas sabem muito bem o que querem ao começar a pós-graduação. Seguem uma metodologia científica hipotética-dedutiva que leva a experimentos que possam responder a perguntas específicas e colocadas a priori. Trata-se de uma sugestão para a análise do discurso. O analista do discurso procura dados longitudinais e esperam sem saber muito bem onde o psicanalítico o levará. E sempre leva a conclusões profundas. A dupla negação é um ótimo tema, dentro deste contexto. Cabe aqui lembrar a voz nasalizada da língua pirahã. Parece-me correta a análise de que a voz nasalizada marca a distinção entre um discurso aparentemente passivo e outro ativo. A voz nasalizada marca um discurso de uma aparente passividade diante da negação. Assim, os enunciados nasalizados marcam falas que são incapazes de mudar uma realidade, a estes seres só cabe receber da natureza. No entanto, há uma polifonia dentro de tudo isso. De acordo com Freud, o ser humano só pode obter seus conceitos mais antigos e mais simples por oposição a seus opostos. O que seria uma dupla negação aqui? É fato que o sujeito advém pela linguagem, mas perde-se nela por estar aí apenas representado. Em suma, trata-se de muita fala chic para eu por em uso algumas palavras de Millor Fernandes, com louvor e distinção. E ponto final.

quinta-feira, março 17, 2005

Mo Cuishle

Quando conversamos sobre o filme sábado, falei do lado ruim dele, porque este lado pesa muito no filme e para mim também. Abstraindo toda a tristeza e toda a coisa ruim, restou ainda dizer, e eu não tive coragem por ser muito tímida, que, sim, você é mo cuishle. Pensei muito em você ao assistir o filme. Vai ser sempre mo cuishle não importa o que se passar. E você vai ter um futuro de muito brilho, que eu sonhei para mim mesma, mas que parei de tristeza pela doença da Julia. Te acho demais. Um dia te falo pessoalmente se eu tiver coragem. Um beijo.

quarta-feira, março 16, 2005

Ama, bebe, e cala

O que é ter uma identidade? É possível encontrar essa coisa em algum lugar? Já vivi o bastante para saber que quando acreditamos que temos um perfil, tudo muda. O bom da vida é não ter valores imutáveis, não acreditar em nada com muita força. Não saber o que é fé. Ter uma ideologia para viver, como dizia Cazuza. Só para viver e fazer perguntas sobre coisas da vida. Mas poder mudar tudo se novas evidências pedirem para isso. Não é necessário estar triste ou alegre para poder ver que novas evidências podem nos levar a outros pontos de vista. Às vezes o óbvio nos aborda quando estamos meramente tentando chegar em algum lugar na hora certa, quando estamos apenas pensando em dirigir e chegar. A simples vontade de chegar pode, às vezes, nos levar a uma reconstrução de identidade. Quero reencontrar meu pai, poder entendê-lo e fazer em mim um pouco dele ainda vivo. Na noite passada eu sonhei com meu pai. Ele me cobria porque eu estava com frio tomando tanta chuva.

Ama, bebe, e cala.
O mais é nada.
Fernando Pessoa

terça-feira, março 15, 2005

OK! OK! Hold it!

I just want to say something.
You know, for every dollar a man makes, a woman makes 63 cents. Now, fifty years ago that was 62 cents. So, with that kind of luck, it'll be the year 3,888 before we make a buck. But hey, girls?
Well, I could just go on and on and on... But tonight I've got a headache.

Mais um pouco sobre o assunto. Estavam um homem, três mulheres e uma pré-adolescente. A pré-adolescente comentou, de repente, sobre o fato de ter observado que apenas homens tomam iniciativa perante mulheres; e perguntou, então, sobre o que o grupo de adultos pensava sobre mulheres tomarem a iniciativa. Queria saber se achavam bom ou ruim, pois era provavelmente o que ela planejava fazer. O homem respondeu explicando o porquê, em sua opinião, de as coisas serem assim. As mulheres simplesmente se calaram. Silêncio total. Um exemplar caso do problema de Orwell (vide prefácio de knowledge of Language de Chomsky).

Balada de Santa Maria Egipcíaca (Manuel Bandeira)

Santa Maria Egipcíaca seguia
Em peregrinação à terra do Senhor.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
Santa Maria Egipcíaca chegou
À beira de um grande rio.
Era tão longe a outra margem!
E estava junto à ribanceira,
Num barco,
Um homem de olhar duro.
Santa Maria Egipcíaca rogou:
Leva-me à outra parte do rio.
Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
O homem duro fitou-a sem dó.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
-Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
Leva-me à outra parte.
O homem duro escarneceu: - Não tens dinheiro,
Mulher, mas tens corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.
E fez um gesto. E a santa sorriu,
Na graça divina, ao gesto que ele fez.
Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
A santidade de sua nudez.

Maria Egipcíaca deu sem pecar. Maria, rogai por nós que não queremos ser pecadoras.

Rosana, feliz aniversário, querida!

domingo, março 13, 2005

pra ti

Como encontrar-te depois de ter perdido
Uma por uma as tardes que encontrei
O ser de todo o ser de quem nem sei
Se podes ser ao menos pressentido?

Não te busquei no reino prometido
Da terra nem na paixão com que eu o amei
E porque não és tempo não dei
Meu desejo pelas horas consumido

Apenas imagino que me espera
No infinito silêncio a pura face
Pr'além de vida morte ou Primavera
E que o verei de frente e sem disfarce

Sophia Andrensen

quinta-feira, março 10, 2005

Paulinho

Paulinho

Você ainda lê essa droga? A Rose falou que você me telefonou hoje. Telefona de novo. Gosto de falar com você.

À morte

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!
Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!


Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosas a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
- Quanto mais funda e lúgubre a descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!


Feliz aniversário

domingo, março 06, 2005

Sem nome

Sou uma apaixonada pela vida, mas nunca amei. Falo tanto em amor talvez por ser o que falta na minha vida. Falo do amor romântico, dos livros, que é o que conheço bem. Não de pessoas verdadeiras. Um amigo me disse uma vez em uma rua chuvosa de Brasília que conhece mais livros que gente. Eu também, e com muito mais tempo de conhecimento. Triste, mas mesmo assim continuo amando a vida. Ainda mais eu que fiquei tanto tempo quase morta de dor pela Julia. Aprendi que tudo passa na vida, mas tem coisas que passam sem serem esquecidas. A dor deste episódio está neste caso. Este não esquecimento faz ainda maior o medo do amor. Não sei bem o porquê, mas é fato. Assim, falo com o conhecimento das letras e não da vida. Meu casamento foi estável enquanto eu estava no exterior, talvez pela necessidade de companhia em mundo estranho, não era amor como definido pela minha mãe. Como será este sentimento quando verdadeiro? Minha mãe define isso como ter uma pessoa perto que é amigo, irmão, pai e filho. Tudo em uma única pessoa. Não, não sei como é. Nem acho que vou saber. Acho o mundo estranho. Amo a vida, mas não sei o que é amor. Talvez por ser do signo de peixes. Será que isso faz diferença? Não creio, mas é fato que sou um peixe. Ser assustado, que foge fácil para outra praia por medo se sentir insegurança. Ser instável. Vivi em dois tempos diferentes e o não entendimento de relacionamento em qualquer dos dois tempos me faz ainda mais perplexa e cheia de proteção. Ser que sente pequenas emoções com grande paixão, mas que não pode (consegue?) chegar às grandes. Ser diferente do meu estável e maduro lado racional. Solução imediata? Transformar tudo em apenas razão. Eu e uma amiga resolvemos fazer trabalho de campo na noite. Faremos uma etnografia sobre relacionamentos. Observamos. Anotamos e discutimos. Não há nada de sentimento, pura investigação científica. Coisa absurda, mas muito engraçada. É isso, nada muda. Mas o riso me faz amar ainda mais o fato de simplesmente estar viva.

sábado, março 05, 2005

Noite de solidão

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas.
Fernando Pessoa

sexta-feira, março 04, 2005

é isso ai mesmo!

“Quanto mais inteligente uma pessoa, mais sólidas as burrices.”

quinta-feira, março 03, 2005

Azar?

Como prometido, além de feitiçaria, fui para uma festa. Que festa droga! Horrível. E no final, não se tratava de azar, mas da ação, em relação às bolsas de IC, do mesmo pessoal de sempre. Esta gente não tem nada mais para fazer que perturbar a minha vida? Que deprimir meus alunos para me afetar? Que loucura. Acho que eles precisam saber que ser feliz pode ser tão fácil como fechar os olhos. Verdade que nem sempre isso é possível, mas tentar perturbar a vida de outros não acaba com insônia. Vou ter insônia, mas vou fechar os olhos e pensar no que faz parte de meus dias feliz.

quarta-feira, março 02, 2005

FTU

exclamar: FTU!,
which is a short form of : Fuck the universe!,
which itself is actually a short form of:
Love is a pain in the ass;
Life is a bitch and then you die;
So fuck the universe! (Well, at least the system or society or some bunch
of ugly people that make life hell.) (Ahh, whatever...)
Chiaozinho
Daniel

terça-feira, março 01, 2005

Que não me pegue a inquisição!

Gigi,

A mandinga é tão brava que merece ser publicada na página principal deste blog. Assim, com vocês, diretamente da inquisição (vejam que se trata de bruxaria legítima de uma senhora queimada durante a inquisição, este blog não posta charlataria. Notem inclusive a ortografia original de uma senhora semi-letrada):

"toma hüa basora i enfeita i uistida Como molher i deita pella esCasda abaCho di nuote fora doras Com palauras diabliquas i feiCha a porta i pola manha aCha ensima"

Se isso não funcionar, apele para a parte mais drástica:

"fas deuasais de santos defezos que he são diniel i santo arasmo Com quartas diaboliquas Com tres Candeinhas asezas nua sem Camiza Com os Cabellos deitados pellas Costas abaCho fazendo mezuras pelos Cantos de Caza i abre a genela fora doras i dis palauras diaboliquas"

E, sem nem isso funcionar, acenda (durante o pôr-do-sol) uma vela ao lado de um vaso com uma rosa e um copo de água potável. Beba a água depois de pedir uma trégua pro inferno astral.

Deixe o vaso com a rosa ao lado da cama, até uma das pétalas cair. Então despetale a rosa com as mãos e jogue tudo em água corrente.

Adeus inferno astral! Pequeno problema: se isso não funcionar eu serei presa e internada, com certeza, talvez até queimada viva no próprio IEL, ao falar palavras diabólicas sem camisa na janela!

Mas tudo bem Gigi. Tudo pelo fim do inverno astral!

Inferno astral

Março começa mal. Jaqueline: bolsa negada. Alexandre: bolsa negada. E ainda perdi a Dirce, minha secretária de ouro. O SAE negou suporte para este ano. E para completar, um milhão de pareceres para o CEL e para o IJAL. Ai, ai. Volta fevereiro. Minha única explicação é que começa meu inferno astral. Não quero fazer aniversário! Solução: mais festas. Na última quinta-feira não dormi. Cheguei em casa 7h da manhã para pegar as crianças que o Paulo deveria entregar às 7:30. Daí fui direto para a terapia da Julia, escola, qualificação de doutorado e outra festa à noite. Beleza. Vida leve. Refaremos, então, os projetos. Darei, então, os pareceres.