sexta-feira, dezembro 31, 2004

O motivo deste blog: Helena, a moça de branco, dos lábios cheios de poesia

Por Luiz Carlos Amorim

Estávamos nós, outro dia, montando o Projeto Poesia no Shopping, quando apareceu, de mansinho, uma moça que olhou os poemas, leu quase todos, procurou alguma coisa na bolsa e rodeou a gente como quem está muitíssimo interessada no trabalho que estávamos realizando. Querendo dizer alguma coisa - sobre poesia, com certeza.
Pensamos que fosse uma nova poeta (poetisa, eu sei!), uma daquelas pessoas que escreve mas ainda não mostrou seu trabalho e quer mostrá-lo a alguém. É comum isso acontecer com pessoas do nosso grupo. Mas não era isso. Perguntou se gostávamos de poesia, o que achávamos de alguém chegar, de repente, onde quer que nos encontrássemos, e dizer-nos, a queima-roupa, um poema. Dissemos-lhe que seria muito interessante, porque não estaríamos indo de encontro à poesia, ao contrário, a poesia estaria vindo ao nosso encontro. E ela, então, abriu um sorriso e nos leu um poema de Cecília Meirelles. Que falava de mãos cansadas, rosto magro, mudança: "Retrato" - ".. em que espelho ficou perdida a minha face?"
Perguntou-me qual a sensação de ter ouvido um poema, assim, sem esperar. Na verdade, eu esperava. Disse-lhe que a sensação fora ótima. E fora, mesmo. Disse-lhe que era muito bom ver que alguém se presta a sair por aí, pelo mundo a mostrar poesia, a dizer poesia para as pessoas, tornando a vida das pessoas mais suave, levando-lhe sensibilidade e emoção.
Helena sorriu e eu quis até que tivesse ficado feliz. Disse-me que fazia uma pesquisa para saber das pessoas comuns, do público em geral, aquele que não está acostumado a ler poesia, que na verdade nem a conhecem, o que sentem ao esbarrar com ela, ao passar a conhecê-la. E eu fiquei feliz, também, por ver que existe alguém preocupado em levar poesia para as pessoas, tornar a poesia conhecida e apreciada. Pedi a ela que enviasse o resultado da sua pesquisa, para publicar nos espaços de que podemos dispor. E lhe ofereci poesia, como ela tão gentilmente o fizera. Quem sabe ela não aborda você, leitor, qualquer dia destes, e lhe diz um poema meu? Se isso acontecer, aceite a poesia de Helena, qualquer que seja o autor. E sorria, que é o mínimo que a gente pode retribuir.
Helena, a moça de branco, dos lábios cheios de poesia, foi embora, deixando um rastro de ternura. E eu até esqueci de perguntar se ela também escrevia, a propósito do que pensei no início, de que ela talvez fosse uma nova poeta procurando espaço para o próprio poema. Acho até que ela escreve, mas não procura espaço para o seu poema e sim para a poesia.
Deus te abençoe, Helena. A poesia te agradece. E nós também.

Feliz 2005, para uma estrada melhor?

Retrato Em Branco e Preto
Chico Buarque

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

the best of 2004

1) O sujeito ergativo é aquele gerado sem a participação do verbo. Funciona! Já tenho dados de línguas caribe, macro-je, je e guaikurú. Além de algo que apenas se aproxima que vem do Arizona (argumentos de autoridade). Parabéns aos autores! A great paper will appear soon! Feliz ano novo!

2) Saiu o projeto temático da FAPESP no dia da defesa de mestrado do André. O André chorou de emoção (duas vezes jubilado!!) e eu ganhei dois presentes. Eu, que já tinha petrodólares, fiquei bilhardária. Pobres daqueles que não têm um projeto para puxar pelo rabo. Feliz rico ano novo! Sorte no jogo, infeliz no amor, xi...

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quinta-feira, dezembro 30, 2004

Pablo Neruda

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a los lejos"

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como esta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Que importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles,
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuanto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor y tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

Ao natal

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida.


Quem trouxe a criança de volta à vida não esquece a mãe morta. Não, não esqueço, pois aquele que foi parido do seio inerte a trará de volta à vida. Três vezes anunciado, três vezes necessita.

domingo, dezembro 26, 2004

Inoetema Filomena

eliodi Filomena me yowoo ika ijo ane jaGopi
AGika Filomena loqaGedi
Yajipata lalenaGa loqaGedi
Filomena lalenaGa lewiGa leeGodi loqaGedi lalenaGa yacakonaGa
dabaale latobi
Yemi Dorila,
Anoetema Filomena.


Saudades saudades saudades demais
noite triste
noite de busca
falta de sabor
falta de amor
noite inútil
solidão
então compreendo
a paixão
a loucura
a ilusão daquilo que não existe
o equívoco
os olhos:
um alegre bálsamo
uma ardência na língua
com a escuridão
tudo se achata
sombra:
ilusão de realidade
é saudade


Amar!
Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


quinta-feira, dezembro 23, 2004

Memórias: saudades de Ken Hale

Foi na reunião da Linguistic Society of America de 1995 que conheci Ken Hale, pessoa que influenciou enormemente minha vida. Ele era o presidente da mesa. Isso ocorreu em uma época em que eu estava bastante desacreditada de meu trabalho de doutorado, dados os desacordos com Daniel Everett. Ken Hale, um dos mais prestigiados lingüistas dos Estados Unidos, fez uma menção honrosa ao meu trabalho frente a uma platéia de quase duzentas pessoas que haviam ido vê-lo falar sobre interface semântica-sintaxe. Ele me fez otimista de novo. Queria conhecer Chomsky. O modo veemente como ele revolucionou os estudos sobre linguagem me impressionaram desde a graduação e eu queria muito conhecê-lo pessoalmente, saber como ele é como pessoa. Surgiu da LSA de 1995 uma oportunidade de continuar meu trabalho com Hale como pós-doutoranda no MIT. A proposta pareceu-me irrecusável. Mas o CNPq não aprovou que eu fosse para Boston, permanecendo, portanto, nos Estados Unidos, e não me concedeu bolsa de pós-doutoramento. Não foi apenas o CNPq que pressionou para eu não ir a Boston. Sofri pressão da Carnegie Mellon University para ficar em Pittsburgh, pois já havia um ano que eu trabalhava naquela universidade. Abandonei a posição na Carnegie Mellon e ignorei o CNPq. Fui para Boston para uma vida financeiramente bastante precária. A passagem pelo MIT definiu em muito quem sou hoje. No dia 22 de maio de 1997 minha primeira filha (com 1 mês e quatro dias) sofreu uma parada cardíaca. Tudo mudou na minha vida. Foi um ano de internações freqüentes no Hospital da Criança em Boston. Sem o apoio de pessoas como Ken Hale e Luciana Storto (colega brasileira e doutoranda no MIT) eu não seria mais uma lingüista hoje. Julia, minha filha, ficou com paralisia cerebral devido ao problema cardíaco. Eu fiquei transtornada. Pensei em abandonar a lingüística porque acreditava que meu conhecimento não podia ajudar a Julia. Se este conhecimento não servia nem mesmo para ajudar minha própria filha, de nada serviria. Perdi a vontade de tudo. Foi com a ajuda destas pessoas que eu retomei o rumo de minha vida. Voltei para a UNICAMP e para o interior de São Paulo, onde vive minha família. O carinho de meus colegas e de meus alunos na UNICAMP me deram vontade de lutar por meu ideal novamente: de ver as línguas brasileiras figurarem na construção da lingüística. Mas este não é mais meu único grande sonho. Quero ver minha filha completamente independente um dia. Com Ken e Sally Hale, que também têm um filho com deficiência, eu aprendi mais que uma postura acadêmica. Saí do Brasil com uma paixão pelo estudo de línguas nativas das Américas, mas voltei pronta para lutar por duas paixões. Vencemos a morte. Vencemos a vida. Ken, você me ensinou a viver. Saudades.

Mais Florbela, amo Florbela

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Trabalho de campo

¨Ao moralista, a sociedade bororo ministra uma lição: que ele escute seus infomantes indígenas; estes hão de lhe descrever, como o fizeram para mim, esse balé em que duas metades de aldeia obrigam-se a viver e a respirar uma por meio da outra, trocando as mulheres, os bens e os serviços em meio a uma fervorosa preocupação de reciprocidade, casando seus filhos entre si, enterrando mutuamente seus mortos, garantindo-se uma à outra que a vida é eterna, o mundo, caridoso, e a sociedade, justa. Para comprovar essas verdades e manter essas convicções, seus sábios elaboraram uma cosmologia grandiosa; inscreveram-na na planta de suas aldeias e na repartição das habitações. As contradições em que esbarram, enfrentaram-nas e reefrentaram-nas, jamais aceitando uma oposição a não ser para negá-la em favor de outra, dividindo e separando os grupos, associando-os e defrontando-os, fazendo de toda a sua vida social e esperitual um brasão em que a simetria e a assimetria se equilibram, como nos elaborados desenhos com que uma bela Cadiueu, mais obscuramente torturada pela mesma preocupação, fere o próprio rosto.¨ (Lévy-Strass, 1955: 229).

quarta-feira, dezembro 22, 2004

O tempo não existe

“Desço desta solidão e espalho coisas sobre um chão de giz.”
“Meus 20 anos de boy, that´s over baby!¨

No escuro uma mão me guia. Não há estrelas. Não há. Há a mão que se ajeita na minha. Uso uma camisa de força. Fico imobilizada. Posso viver sem ver? A razão não deixa. O coração está parado.

O tempo existe?

O pôr do sol existe. Brilha.

Queria um beijo. Não vou ganhar.

Uma criança no colo. Queria um beijo. Não vou ganhar. Melhor chorar.


"No mais, estou indo embora, baby".
"No mais, estou indo embora, baby".

Elba e Zé que cantem o resto. Eu não posso ver portanto não posso cantar.

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Para falar melhor de beijos, Florbela é claro


Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!...


terça-feira, dezembro 21, 2004

Julia

Ao dia 7 de dezembro de 2004, carta enviada à Julia e lida no dia de sua formatura

Poucas mães sonharam com uma formatura de pré-primário. Mas eu sonhei muito e lutei muito para que isso acontecesse. Mas eu não vou poder estar para ver. Não pude. Mas o caminho já está trilhado, é o que importa. Foram anos de argumentação para que minha filhinha fosse aceita em uma boa escola e para que tivesse as mesmas chances de aprender e se desenvolver como qualquer outra criança. Para que fosse aceita e respeitada. Obrigada ECC por tornar esse sonho realidade. Obrigada pais e mães por todo o carinho que recebemos. Não pude estar hoje aqui, mas meu coração está tão presente quanto eu estive fisicamente em cada momento, em cada festinha. Nosso caminho de apenas sete anos foi longo e vejo com felicidade o resultado. Obrigada a todas as professoras, coordenadoras, monitoras, guardas da portaria. Obrigada ECC. Julia, eu te amo.

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Eu
Florbela Espanca

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino, amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!