Fui passar as férias em uma pequena cidade considerada modelo, 80 km de Campinas, interior de São Paulo, onde mora minha família. Habitada por pessoas honestas. Todos se conhecem e se ajudam. Uma verdadeira comunidade!
Infelizmente tem muito tempo que deixei esta cidade e não tenho mais amigos.
Mas tem a Quica, amiga da prima e da tia. Ela oferece amizade. Vai a uma festa de reveillon e me convidou. Que bom! Uma festa chic mic, mas tudo bem. Novas amizades... Araras é maniqueísta suficientemente para conseguir traçar uma linha bem clara entre elite e o outro lado. Eu me lembro do clube ararense, que somente recebia as pessoas consideradas de bem por um comitê. O clube oferecia um barzinho aos sábados e recebia salgadas mensalidades das pessoas de bem.
Quando chego à casa da tia, a prima falou que todos comentam que eu tatuei a perna toda com uma tatuagem de dois palmos e oito dedos de tamanho. É, não é bem assim, mas tudo bem.
Volta à casa, feliz, a Quica vai à festa e eu também!
Não, não pode. É prostituta.
Como assim? É enfermeira do hospital municipal.
Não presta, saiu com um médico casado (na verdade, parece, talvez, que separado), mais velho. Nunca mais será bem vista e nem quem sair com ela. Proibida. Não pode manchar o bom nome dos Sandalos na comunidade.
Será que o nome Sandalo também mancha, então?
Vamos ver no que isso vai dar...
Deve sair com a prima que vem de Ribeirão que chega no dia 31. É a primeira vez que vem para Araras.
Mas a prima vai sair com a irmã da cunhada e duas amigas, já está resolvido.
Em um discurso próprio de Grace sobre respeito humano, tolerância, democracia, preconceitos, etc, resolvo aceitar a imposição e ir com a prima de Ribeirão! Tolerância significa também respeitar a visão antiquada da mãe.
Vou ter que me oferecer. Não fui convidada. Tolerância é tolerância. Aceitar as diferenças... Pode ser interessante conhecer o outro lado de Araras. Aviso que gostei da Quica, mas dou minha palavra de obediência.
Na ceia, a mãe entende onde as escolhidas vão. Agrada a Quica, e Quica re-convida.
Palavra é palavra, não volto. Faço o que prometi.
Mas Graces reais também têm seu lado monstro. Sabia que puniria a mãe assim fazendo, vendo que desviou a filha da elite para o submundo. Modo de questionar ideologias ou crueldade? Crueldade com quem?
Têm também seus preconceitos. Não consegue entrar na festa com os caras com cara de ladrão na porta.
O que a elite com a gente? Vamos destruir a festa, então.
Rodamos de carro procurando a pseudo-alternativa que poderia agradar a diversidade, até quase acabar a gasolina, desviando de bêbados. Quase que minha merivinha se acaba em uma quase batida de frente com um fusca branco de portas abertas.
Não, minha meriva, não. Cansei, deixei-as em casa.
Somente a prima de Ribeirão fica. Vamos à festa da elite.
O que? Chegando duas da madrugada e não conhece ninguém na festa? Como pode? Não, senhor porteiro, não somos de Araras. Por isso não conhecemos ninguém. Tá cheio, não pode mais. Deixa entrar. Não.
Cadê a Quica? Qual o verdadeiro nome e o sobrenome para ser chamada. Não sei. Nunca perguntei.
Resto da noite na fila vendo as pessoas atrasadas telefonando para figurões virem para a porta ou dizendo “sabe de quem sou filho?” para conseguir entrar.
Grace jamais usaria um argumento de autoridade. Ficamos na rua em frente à festa, resto da noite. Em uma longa fila para o porteiro decidir quem deixaria de ser excluído por escolha. Vamos ver onde isso vai dar... Não fomos escolhidas.
Na segunda-feira levei o carro para a revisão. Já que ele se salvou, melhor deixar bem bonitinho.
Às cinco horas da tarde, o Ademir ligou e minha mãe atendeu. Horrorizada, falou tem um Ademir te procurando. Quem é Ademir? O que é isso?
Olha, tem 1200 reais de peças para trocar, pode parcelar em cinco vezes. Faz o serviço? Dá para devolver o carro amanhã.
Pode fazer, Ademir. Obrigada.
Será que tem algum pai gangster para me tirar de Dogville?